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terça-feira, 15 de novembro de 2011

és as máquinas




pensei que se não visse não serias.
mas tu és, em último caso, a sombra do meu timbre;
tu és as máquinas do mundo que avançam e matam;
és a fome maior que afecta o meu pensamento circular.

és os silêncios que tornam estas palavras realizáveis. és o mar,
solto das suas correntes. sons estridentes. és as máquinas.

és o futuro e o passado conjugados num só. és o pó.
és a terra que me derruba e prende. és tu sem estares
onde eu estou, porque o espaço é curto e tu não caberias.
és o tempo que se estende. és as horas frias. és as máquinas.

pensei que se te dissesse saberias.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

100/sem seres


tenho várias assinaturas manipuladas que uso, quase sem pulso, para escrever o meu nome. são rebuscadas, são perfeitas sem mim, são autómatas. Sou eu, sendo os outros que pareço. conheço várias pessoas e nenhuma me conhece de todo. eu próprio não me conheço de todo.

existem histórias, que me embalam amargamente naquelas noites vazias de mim, frias no meu calor introvertido. cem personagens ficcionadas cobrem as paredes meninas do meu quarto já gasto de cores. ao canto a janela está aberta, e eu pareço não querer aparecer. sob o olhar altivo da janela está a velha secretária, com velhos papéis assinados por mim. todos diferentes, todos iguais: todos papéis.
existem cem ruas escondidas, com cem pessoas tão inconscientemente perdidas. e quando pensam que se perderam, encontram-se por fim. são elas por um momento, depois procuram um rumo e voltam a perder-se. estou numa dessas ruas, mas o meu corpo dorme num quarto distante. paradoxo do espaço. alguns podem pensar que é a minha alma quem anda, outros podem pressentir que é o meu pensamento quem caminha, quem comanda, solto das minhas pernas cansadas. não sei responder. apenas sei que vou caminhando parado.

passo por cem seres, cem ruas. em cada encontro procuro por mim. paro. tiro medidas, pergunto nomes, peço moradas. depois prossigo.

se me encontrei não me reconheci…




               

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

descanso às árvores!


 desde os tempos primordiais que o Homem sente a necessidade de comunicar, de interagir com os outros, no fundo, de produzir e receber conhecimento. de resto, tal como todas as espécies de ser viventes comunicam, ainda que de forma muito mais rudimentar. fica, portanto, reservada à humanidade a capacidade de criar e divulgar conhecimento.
               
para esse efeito, o acto de redigir um texto sempre foi uma das formas mais utilizadas para comunicar. até Deus escreveu em tábuas para que a sua mensagem não fosse perdida e, dessa forma, o povo Hebreu seguisse, ao longo dos séculos, os seus mandamentos. no entanto, escrever em tábuas nunca foi algo fácil para o braço humano, tornando-se o papel, durante uma linha de tempo bastante extensa, o meio que suportou a comunicação escrita. ele permite que uma mensagem se torne intemporal e se propague, porém tem a desvantagem de ser unidireccional. ou seja, a mensagem não pode ter feedback directo e a interactividade é inexistente.
               
com o desenvolvimento dos meios tecnológicos deu-se uma revolução na forma de comunicar. actualmente o mundo está todo interligado, tal como sucede com a informação escrita. a palavra folha de papel foi substituída por webpage, a palavra texto por hipertexto e a palavra leitor deu lugar a seguidor, alguém que interage em tempo real com o autor da mensagem.
               
as bibliotecas e os alfarrabistas perderam alguma da sua essência, pois na Internet temos tudo o que procuramos à distância de um clique. a própria Literatura aliou-se ao avanço tecnológico, sendo os e-books actualmente uma realidade. os Poetas de hoje deixaram de escrever nos guardanapos dos cafés e passaram a escrever directamente nos seus blogues. através deles chegam até outras pessoas com interesses comuns ou semelhantes aos seus. tudo está relacionado de forma simples e intuitiva. cada um lê, ou consome, apenas aquilo que pretende.

o mundo parece girar mais RÁPIDO. tudo está mais PERTO. Tudo está “linkado” a TUDO.

não escrevemos em tábuas ou em guardanapos.

descanso às árvores!

domingo, 6 de novembro de 2011

para nunca me esquecer


tem cara de menino. não conhece ainda o mundo,
e talvez por essa razão vá olhando pela janela,
com olhos prematuros, fixando as paisagens iguais,
sempre repetidas nos túneis escuros do metro.

uma parte da sua face sorri e a outra é triste. olho.
tento evitar. olham muitos curiosos. ele não vê.
o metro arrastando-se nos carris, o tempo a passar.

olho e penso que aquele miúdo é um poema vivo.
tem duas caras que não esconde, que não pode…
ainda é cedo para querer. quer perceber o mundo.

o seu pai, sentado à sua frente, tem uma só cara.
é triste. percebe os habituais olhares circundantes,
pensa que o seu filho não é um menino comum.

não é. de facto, não é.

a treva agarrada ao túnel e espelhada nos vidros,
porém, a sua face mais perto da janela sorri sempre.
a outra próxima de todos os olhos que o examinam,
das sobrancelhas que se franzem, da minha inveja,
do mundo, é triste. as suas duas faces coincidem.

como eu gostava de ter essa capacidade,
exibir a dualidade, fotografá-la e torná-la imortal.

aquele menino um dia vai crescer e vai perceber
que as pessoas com apenas uma cara, tão formal,
escondem dentro de si crianças como ele.

sorri levemente após este pensamento.
tenho esperanças de um dia o voltar o ver.

depois a luz. o metro parou. saí. ele não me viu.

escrevi este poema para eu nunca me esquecer.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

sob nossos pés



não chove e eu disse-te. é a sorte.

enquanto os sinos anunciam aquela morte
alguém nascerá no Japão, sob nossos pés,
voltado de costas para nós, chorando muito.
ainda não saberá sentir, porém, saberá chorar.

nos velhos cadáveres uma fotografia persiste,
no amanhecer o sol vem desconfiado, treme,

não sabe porquê.

as velhas aprontam as lágrimas
e ajeitam as saias que cobrem as pernas esmurradas
por nobres senhores agora extintos – deixai-os estar!
já somos demasiados! já estamos atrasados!

não cabem mais no mundo as velhas hesitações.
tentaram mudar tantas vezes, inverter os padrões,
com centenas de milhares de mentiras pintadas
e expostas nos mais belos museus. queime-se tudo!
as ciências tenho-as comigo, um pouco rasgadas.

venha o padre! as velhas já chegaram!
está na hora, enterremos a tradição!

o tempo correu na torre sineira
e alguém nasceu no Japão…

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

poema podendo servir de posfácio



"ruas onde o perigo é evidente
braços verdes de práticas ocultas
cadáveres à tona da água
girassóis
e um corpo
um corpo para cortar as lâmpadas do dia
um corpo para descer uma paisagem de aves
para ir de manhã cedo e voltar muito tarde
rodeado de anões e de campos de lilases
um corpo para cobrir a tua ausência
como uma colcha
um talher
um perfume


isto ou o seu contrário, mas de certa maneira hiante
e com muita gente à volta a ver o que é
isto ou uma população de sessenta mil almas
devorando almofadas escarlates a caminho
do mar
e que chegam
ao crepúsculo
encostados aos submarinos
isto ou um torso desalojado de um verso
e cuja morte é o orgulho de todos
ó pálida cidade construída
como uma febre entre dois patamares!
vamos distribuir ao domicílio
terra para encher candelabros
leitos de fumo para amantes erectos
tabuinhas com palavras interditas
- uma mulher para este que está quase a perder
o gosto à vida - tome lá -
dois netos para essa velha aí no fim da fila -
não temos mais -
saquear o museu dar um diadema ao mundo e depois
obrigar a repor no mesmo sítio
e para ti e para mim, assentes num espaço útil,
veneno para entornar nos olhos do gigante

isto ou um rosto um rosto solitário como barco em
demanda d eventos calmo para a noite
se nós somos areia que se filtre
a um vento débil entre arbustos pintados
se um propósito deve atingir a sua margem como
as correntes da terra náufragos e tempestade
se o homem das pensões e das hospedarias levanta
a sua fronte de cratera molhada
se na rua o sol brilha como nunca
se por um minuto
vale a pena
esperar
isto ou a alegria igual à simples forma de um pulso
aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas
isto ou a alegria dita o avião de cartas
entrada pela janela saída pelo telhado


ah mas então a pirâmide existe?
ah mas então a pirâmide diz coisas?
então a pirâmide é o segredo de cada um com
o mundo?


sim meu amor a pirâmide existe
a pirâmide diz muitíssimas coisas
a pirâmide é a arte de bailar em silêncio


e em todo o caso



há praças onde esculpir um lírio
zonas subtis de propagação do azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar"

Mário Cesariny

terça-feira, 1 de novembro de 2011

não acordes ninguém que possa perceber


olhemos o céu, a sua dimensão não importa.
esta noite contaremos todas as estrelas vivas
e aquelas que ainda brilham hoje para nós,
bem lá no alto, são mortas já, a noite inteira.

olhemos as ruas e os seus longitudinais anos,
os buracos que vai tapando com os pedintes
e as suas placas, com os nomes tão opacos.

vamos caminhando, o tempo vem também.

(se não sabemos a verdade podemos sempre inventar)

vamos nós, sempre sós, somos crianças de cabelos brancos.
vagueamos descalços na calçada, manchada de ácido.
não digas nada, não acordes ninguém que possa perceber

esta noite.

esta noite roubamos estrelas que colamos na memória.
quantas? não sei dizer. sigamos com os olhos pregados no céu,
fechados, até o meu sonho de novo se me morrer.

(se morremos acordados podemos sempre viver a sonhar)

domingo, 23 de outubro de 2011

PALAVRAS EM GUERRA

(versão revista e integral)


I - Formas de Luta

o dia volvera chuvoso e hoje jogava o Benfica. a guerra parava para respirar, para recuperar o seu fôlego mortal. no acampamento as coisas estavam calmas. um silêncio de domingo, por vezes cortado com gritos de golo. era do Eusébio. todo o regimento explodia de alegria, todos menos eu. eu apenas escrevia. mais uma carta: beijos caligrafados que tocam a face que nunca toquei.
faz já mais de um mês que o meu companheiro, e único amigo, o Damiano, morreu. uma mina destruiu o seu corpo perante os meus olhos parados, como que presos. conhecera-o aqui: no mato que não conhecíamos. éramos muito diferentes. o Damiano falava muito, ria muito, contava histórias da sua terra, do seu mundo, da sua terra….
costumava falar muito da sua família: da sua mãe, do seu pai morto e dela, tão viva na sua lembrança. Maria. é este o seu nome, que para sempre me unirá ao Damiano. era frequente ele falar-me dos sonhos que tinha. todos eles envolviam a Maria. descrevia-a de forma tão real. eu não dizia nada, sorvia apenas todas aquelas palavras que iam criando um rosto, alguém belo no meu pensamento.
estávamos há três semanas em Angola quando o Damiano me pediu, pela primeira vez, para escrever uma carta endereçada à sua moça. mostrava-se um pouco embaraçado. não sabia escrever. sorri-lhe. disse-lhe que escrevia. ele agradeceu, sorriu. não sabíamos.
ele ditava tremulamente tudo aquilo que sentia. enquanto ditava dizia-me constantemente: é uma bela moça; uma moça às direitas. pedia-me sempre que fizesse uma letra bonita: a mais bonita que houvesse no mundo: pedia ele. enquanto eu redigia a carta, o Damiano dizia que gostava de ter sido professor: como eu. pediu-me também que o ensinasse a escrever. já assinava o seu nome antes de morrer.
os combates eram duros. a morte estava em todo lado. nas pedras, no céu, nas árvores, nas águas… enquanto furávamos pelo mato pisávamos cadáveres, companheiros e inimigos mortos lado a lado. nos nossos olhos, cansaço; medo; quase morte. era à noite, no acampamento, que nós soldados, nós homens, nós meninos assustados, encontrávamos algum pouco descanso. alguns rezavam, outros cantavam. eu escrevia. antes escrevia para matar o tempo, agora escrevo para que as minhas palavras vivam no tempo: vivam um dia no coração dela.
hoje é uma dessas noites, em que, esgotado, escrevo. hoje o Damiano já não me dita as palavras, hoje as palavras são minhas: sou dono delas e entrego-lhas. envio-lhas para longe, para Portugal. para uma aldeia pequena perto de Beja, da qual nada conheço: apenas ela e nem ela conheço. apenas uma fotografia, que encontrei metida nas coisas do Damiano.
é certo que por esta altura podem estar a pensar que o que faço é errado…talvez seja mesmo errado. mas mais do que errado, é inevitável. ao longo de todas as cartas que lhe escrevi, de todas as que recebi e li para o Damiano, de todas as histórias contadas com palavras doces, de todos os detalhes narrados com pitadas picantes, esta mulher passou a fazer, inexplicavelmente, parte de mim. e eu, eu não a posso remover. depois de Damiano morrer, tentei parar, lutar contra mim próprio. mas não consegui. sou tão fraco. fui mais forte. continuei a escrever-lhe cartas e mais cartas. todas diferentes, todas iguais. e o mais espantoso: as minhas cartas tiveram retorno. ela sentia o mesmo. sem sabermos, sem termos uma explicação razoável, fomos nós sem os demais.
é certo que estou rodeado de gente, mas estou sozinho. a vida por um fio: um fio de cabelo dela que nunca toquei. hei-de voltar um dia, prometo isto a mim próprio. tenho de a conhecer. tenho de a ver: saber que é real.
por isso vivo, por isso escrevo, por isso luto por Portugal.



II - Palavras Para a Minha Mãe

“ luto por Portugal. luto por todos nós e por nós sobrevivo, Mãe.
gostava de ver o teu orgulho ao ler estas palavras, que o meu rosto inexpressivo não te poderia nunca dar, gostava de ser menino, outra vez, e de pousar a minha cabeça no teu colo, gostava de poder chorar… como eu gostaria, Mãe.
aqui sou eu e os outros: uma guerra infindável entre soldados, que não são mais que meros peões. tão cansados. sinto-me cansado, Mãe. não digo que tenho medo, mas sinto o medo. não poderei nunca dizê-lo. porque o medo sem ser dito é apenas uma noite de o inverno, cortante, arrepiante.
penso nas histórias que me contavas e nos beijos que me davas para eu adormecer, Mãe. penso nisso durante estes escuros dias. mato homens diferentes, iguais a mim durante o dia. nesses momentos não penso em nada. a guerra é assim. sou eu e os outros, separados por balas. sou eu sem eu mesmo, matando, matando. é a minha voz sem o meu ímpeto, gritando, gritando.
espero poder voltar. prometo que voltarei, Mãe. espero que me reconheças ainda quando voltar, Mãe. não prometo que seja eu.”



III - Depois de Abril

de Lisboa até Beja passam-se três horas e meia na carreira. o ar é pouco e a gente muita. a velha carreira é lenta e o tempo também. pela janela a paisagem apresenta-se quase imutável. a planície, resplandecente pelo sol alto da tarde quente, parece infinita. a minha cabeça, pousada sobre a minha mão cerrada, tem um peso mil vezes mais pesado que o seu peso: pensamentos.
os meus pensamentos parecem infinitos, mas todos findam na mesma imagem, no mesmo rosto, na mesma voz que nunca escutei…mas conheço-a. conheço-a tão bem. falou comigo tantas vezes naquele mato mortal, pediu-me tantas vezes que voltasse e eu, sem saber de mais nada, sabia apenas que um dia voltaria. não era da razão que nascia a promessa, era da minha vontade rodeada de balas.
trago no bolso da camisa uma fotografia, a única que tenho dela. esteve sempre perto de mim, em diferentes bolsos. na parte de trás tem uns rabiscos. tem o nome do Damiano, escrito numa letra confusa, e tem o nome dela: Maria: escrito numa letra mais bela. foi a última coisa que o Damiano fez antes de morrer. escreveu o seu nome ao lado do nome daquela mulher, que já lá estava escrito ainda antes da nossa partida para a guerra, escrito ainda antes da chegada daquela guerra que levou o Damiano e me deixou a mim esta fotografia.
olho-a mais uma vez. demoro-me. falta pouco para chegarmos a Beja. guardo-a de novo. à minha volta os velhos vão falando. não os oiço. à minha volta ninguém me chama. consigo ouvi-la tão bem…



IV - Império Morto

“Mãe, escrevo-te esta carta para que saibas que estou bem, para que todos saibam que, eu, estou bem. amanhã embarcamos para Portugal. nem todos. alguns como o Damiano, o meu amigo que fiz aqui, no mato, o amigo de quem te fui falando, Mãe, ficará aqui, como muitos outros, para sempre. mas para sempre é um período de tempo que não conseguimos ver ou pensar, Mãe. não consigo imaginar mais do que vintoito anos. é todo o tempo que tenho e que consigo sentir.
a guerra está terminada e estou mais vivo do que nunca, Mãe. estou diferente. tenho cicatrizes novas, tenho o sangue de outros que se me entranhou na pele, bem fundo, tenho mortes bem presentes na memória e tenho a minha vida – nunca valeu tanto a minha vida.
muita coisa se perdeu aqui para além de territórios, muito para além de um império moribundo. perderam-se pessoas, que viverão para sempre ou que nunca mais viverão, tudo dependerá de nós, daqueles que cá ficámos. tenho a certeza que o Damiano viverá na minha lembrança, pelo menos por mais vintoito anos. é todo o tempo que consigo imaginar.
sinto a tua falta, Mãe. sinto a falta do pai, uma saudade real, que provavelmente nunca conseguirei verbalizar. sinto tanto a vossa falta, Mãe. mas antes de voltar a casa, antes de as nossas palavras ditas, misturadas com o teu choro saudoso de mãe, antes de de eu e o pai nos abraçarmos em silêncio, naquele silêncio nosso que só nós ouvimos o que diz – diz tanta coisa aquele nosso silêncio – , antes de tudo isso, Mãe, eu terei de procurar por mim. fico longe da nossa casa, fico a bastantes quilómetros de distância…
mas fico perto. fico neste beijo que vos deixo.
voltarei em breve. promete este teu filho que te ama, Mãe. prometo eu, longe,

José.”

foram mais ou menos estas as palavras que escrevi para a minha mãe. foram mais ou menos estas as palavras soluçadas, repletas de orgulho, que o meu pai, os vizinhos, toda a gente que consigo imaginar, devem ter ouvido da boca da minha mãe.
chego por fim a esta aldeia estranha, como que deserta. para trás ficaram a carreira e a sua marcha lenta, tornada ainda mais vagarosa pelas histórias, pelas rezas das viúvas. para trás ficou o atrelado, almofadado com palha, rebocado por um velho e pequeno tractor, conduzido por um velho, pequeno e simpático homem que me trouxe até aqui: esta aldeia, da qual nada conheço. apenas ela e nem ela conheço…



V - À Lareira

encontrei a casa dela. havia já passado, duas ruas antes, pela casa do meu amigo Damiano. senti a sua presença, senti um choro. senti um silêncio depois. a noite estava a chegar e o céu, numa tonalidade sanguínea, estava limpo. viam-se as estrelas e um astro mais brilhante: Vénus, sorrindo aos amantes.
para dar com a casa, tinha entrado na única taberna da aldeia. lá, um dos homens, já um pouco bebido, traçou-me uma rota algo confusa que me levou até ali. setenta e quatro, era o número da porta, marcado a giz num muro baixo, velho. era ali. hesitei.
tentei acalmar-me; tentei por o rosto o mais natural possível. não consegui. decidi que ia contar até vinte e nesse exacto momento faria soar a campainha. pareceu-me bem.
seis, sete, oito, nove…um rosto surgiu por detrás da cortina de uma janela isolada de todas as outras. era uma mulher. não era ela. velha demais. tentei sorrir, não sei se consegui.
o vulto desapareceu novamente, enquanto a cortina retomava a sua postura imóvel. houve um silêncio ansioso, quase eterno. durou muito pouco. o rosto, o corpo daquela mulher aproximava-se agora na minha direcção. o eco, do bater da porta, ainda no ar. à medida que se aproximava, os seus olhos fundos, duas sombras num semblante pálido, prendiam-me como correntes de aço. era magra e o cabelo, grisalho, liso, pousado sobre os ombros, ondulava agora com o vento. tinha um longo vestido de fazenda, creio, que lhe tapava quase as pernas feitas de uma pele muito branca. aproximava-se de mim: era a única certeza que eu tinha.
parou diante de mim. tremi. fitou-me sem nenhuma expressão de vida dentro dela. ouvi o meu respirar. trazia uma carta na mão esquerda. encostado, muito sereno ao muro, da parte de dentro da casa, estava um enorme estojo. ainda não nos conhecíamos.
não parecia nada surpreendida com a minha repentina aparição ao portão de sua casa, que fez abrir momentos depois. saiu, como que flutuando. passou junto a mim como que sem me ver. nesse momento percebi pelo seu rosto de quem se tratava. era a mãe d`Ela! o tempo que me demorou esta análise, foi o tempo que aquela mulher precisou para pousar na rua o enorme estojo e pousar-lhe por cima um envelope branco. passou novamente por mim e parou:

– fica sempre comigo… foi o que a minha filha me pediu para lhe dizer no dia em que aparecesse. – ainda tentei mexer-me, falar, fazer-lhe inúmeras perguntas e pedir-lhe, talvez, para entrar.
não tive tempo para nada disto. a mulher virou costas, fechou o portão, entrou em casa, fechou a porta e as cortinas não mais se moveram. silêncio outra vez. milhares de pensamentos confusos na minha cabeça. não sabia bem o que fazer. não fiz nada durante algum tempo. fiquei, ali, parado.
era já noite e a rua estava deserta. apenas eu, um enorme estojo em forma de garrafa e aquele envelope. aquela rua não tinha qualquer tipo de iluminação, à semelhança das restantes por aquelas bandas. lembrei-me que no bolso tinha uma pequena lanterna. acendi-a. peguei no envelope, com as mãos ainda tremendo. abri-o, rasgando-o um pouco. guardei-o no bolso. olhei a folha, meticulosamente dobrada em quatro. li-a depois.

“não poderia ser assim. percebo, agora, que não poderia. não consigo suportar o peso que aquela guerra me trouxe. sou eu contra mim mesma e os outros do meu lado, contra mim.
não poderia. não, não poderia viver assim.
esta aldeia é demasiado pequena. a sua presença está em todos os lados e eu, assustada, fui-me escondendo por de trás das palavras de uma voz incógnita. a tua
esta aldeia conhece-me demasiado. não suporto mais a minha presença, a minha traição. estarei em todos os lados desta aldeia, longe de todos os olhos acusatórios.
amar-te-ei, sem nunca sequer te tocar. irei para onde me levares, como este violoncelo que te deixo, estarei sempre contigo…”

faltavam ainda palavras por ler, quando o chão, abruptamente, se abriu sob os meus pés. as lágrimas sufocaram as minhas palavras e diluíram as dela, escritas em frágil papel. se tivesse a força de um deus, acabaria com o mundo que de mim a tirou.

–vim para te buscar, mas o meu braço não te alcançou…

fui inerte durante muito tempo até as minhas lágrimas secarem e o meu corpo se curvar. as minhas mãos foram agora mais cuidadosas abriram aquele estojo negro. vi-o pela primeira vez: o violoncelo. toquei-o pela primeira vez, ainda que toscamente. conhecemo-nos.

foi assim que este violoncelo, que hoje partilho com o meu filho David, me veio parar às mãos.
depois da guerra, depois da minha inglória jornada voltei a casa, para junto da minha mãe, o meu pai havia morrido dois antes da minha chegada. mas não voltei sozinho. mesmo depois de me ter casado e os meus dois filhos, a Elisa e o David, terem nascido, ela esteve sempre entre nós.
muita coisa mudou em Portugal depois da guerra. de professor passei a pedreiro. nós, soldados, fomos tratados como o lixo de um império morto. o tempo que passámos longe correu muito mais depressa para aqueles que cá ficaram.
o tempo hoje passa mais lento, nos serões que passamos à lareira comigo tocando o velho violoncelo. eu, Ela, a minha mulher e os meus filhos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A CASA DO VIOLONCELO - CAPÍTULO IV - ATRASADO NO TEMPO




- Descreva-me o dia em que, realmente, conheceu o seu pai.


Nesse dia o professor de música não tinha aparecido. Estava doente. Nesse dia o meu violoncelo não se tinha feito ouvir. Estava triste.
Como ainda era cedo, o sol ia ainda alto, decidi convencer a Francisca a ir até minha casa. Nesta época já não éramos tão inocentes assim. Eu sabia, tinha a certeza, que não estaria mais ninguém em casa àquela hora.



Hoje fiz quinze anos. Toda a rua soube disso, nunca ninguém se esqueceu deste dia. Embora todos se esforcem por esquecê-lo, ele parece querer permanecer. Tal como o violoncelo permanece, dormitando, ao canto do meu quarto.

Apesar de já não ser um miúdo, o meu quarto pouco mudou ao longo dos anos. Ao lado da cama está ainda o cesto dos brinquedos, sujos pelo tempo, como que mortos. Na gaveta da mesa de cabeceira, estão pousados os livros de histórias que os meus pais me liam quando era criança. Eram histórias simples, eram finais que eu já não ouvia. Eram histórias, como esta, em que eu não estava. Eram histórias, onde eu estava em pensamento.


fomos. somos. seremos.
seres fielmente enganados,
todos os dias trocados de mundos.

pessoas correm lá fora, cortantes
para os meus olhos programados.

segundos. horas. dias a fio,
permanecemos assim parados.
eu sem mim, eu sem nós
e tu, ignoras de longe, em silêncios profundos
todos os nomes,
todas as ruas por que passamos.

nós, contigo distante.
nós, um ser ofegante
dormindo ao abrigo das mentiras prometidas.

nós, sempre assim.
eu, agora por fim:
só, sem saber bem de ti…

sabendo apenas que nesse nós existi.


Sei que houve um nós. Sei que existi, lá: em nós. Olho a sala vazia, olho pela janela: a rua cheia, mas sempre vazia de propósitos. É uma mancha de gente perdida. É uma mancha. É autómata.

O João está ao meu lado. Estamos à janela vendo a passagem de uma mancha que não nos vê. Atrás de nós o silêncio, encostado a nós, olha também a rua. Ele foi triste. Depois conformou-se. Os anos passaram e o silêncio, cada vez menos revolto, foi também ele aceitando esta sua condição. Por vezes sente falta do choro do violoncelo. Em tempos brincavam, amavam-se durante horas. Hoje esses dias são já muito distantes, vivem apenas na nossa lembrança: na minha, na do meu filho e na do silêncio.



- Continue – disse ele, e depois um silêncio.

Continuo. Continuámos felizes até casa. O caminho era distante, mas as nossas mãos unidas, os nossos olhos presos em nós, as nossas palavras segredadas ao mundo: ao nosso mundo: sussurradas bem alto, os nossos sonhos como fios condutores conduziram-nos até minha casa.

O céu estava agora pintado em tons de laranja, quase sangue. Na minha rua havia um silêncio, uma paz inerente a qualquer fim de tarde normal. Por norma, aceitamos que a paz é silenciosa. Havia silêncio na minha rua. Continuámos.

A minha casa vazia, como verifiquei quando chamei pela minha mãe e pela minha irmã Elisa. Ninguém respondeu. Pousei, em seguida, o violoncelo junto à lareira. A Francisca estava ao meu lado.



Segundo o que me foi dito, o violoncelo chegou com o meu pai, metido num estojo grande e preto, trazido de longe. O meu pai chegara de Angola, de uma guerra que mudaria a sua, as nossas vidas. Primeiro, o violoncelo ficou, com o meu pai, na casa da minha avó. O meu avô havia falecido pouco antes de o regresso do meu pai. Depois, mais tarde, quando os meus pais se casaram, o violoncelo mudou-se com eles para a casa onde eu e a Elisa nascemos, para a casa onde o meu pai morreu.

Muito se alterou na vida do meu pai desde o seu regresso. De professor passou a pedreiro. Profissão que, diga-se, nunca desempenhou com grande competência. A vida não foi fácil, nem para ele nem para a minha mãe, que me criou a mim e à minha irmã sozinha, enquanto o meu pai trabalhava longe.
Nesses tempos, o violoncelo ficou, ao alcance do pó e das cinzas, observando-nos imóvel encostado à lareira.



A Francisca seguiu os meus passos; as nossas mãos entrelaçadas. Caminhávamos absortos apenas em nós. Os passos cuidadosos que dávamos guardavam segredos só nossos.

quando eu penso em alguém, imagino lugares.
geralmente vazios, constantemente distantes.
quando eu sinto que ninguém está por perto,
os meus olhos queimam a minha infiel certeza.
com destreza, cortam a corda dum nó quase certo.

não estou só.

eu sou mais do que um corpo parado,
atrasado no tempo:

sou eu e a lembrança que tenho dos outros.

lembro-me com exactidão de muitos,
mas conheço tão poucos,

tão poucos,

tão poucos…

são imensos dentro deles.



Um ruído vinha do quarto da Elisa: um choro. Ouvi depois a voz do meu pai, áspera, falando mais alto, tentando repor o silêncio.
Aproximei-me com passos leves, como que flutuando; a Francisca ficou parada junto da porta do meu quarto. A distância pouca que nos separava, aumentou de uma forma paranormal.

– Como assim, paranormal?

Nunca compreenderá através de um pensamento, obviamente, tão bem organizado… Que horas são?

– Faltam ainda dez minutos. Continue!

Eu continuei. Parei em frente à porta do quarto da minha irmã. O curto corredor albergava agora todo um mundo: o meu mundo…o nosso mundo. As minhas mãos, o meu corpo, o meu coração tremiam juntos, num perfeito compasso.

Tic, tac, tic, tac, tic, tac!

Entrei por fim. A porta oferecia uma enorme resistência à minha pouca força, ao meu muito medo. Os meus pés pareceram presos. Vi os olhos receosos da Francisca antes de entrar. Algo a tinha também perturbado, aquando daquele berro do meu pai. Algo me escapava. Não por muito tempo…

Os meus olhos viram o que já mais esquecerei. A minha irmã estava na cama, chorando, escondendo o rosto. O meu pai furioso; o meu pai passando apressadamente, junto a mim, sem me olhar. Passou como um punhal que me dilacerou. Algo escapava ainda ao meu pensamento naquele momento, mas eu sentia algo muito perfeitamente: sentia medo, sentia muito medo.

o silêncio grita mais alto que eu e tu juntos
e as palavras ficam a ver passar a procissão.

lá vão os tempos em que tanto dissemos,
que tanto jurámos sabendo ser mentira.

no chão, nós vemo-nos numa poça, pintada a carvão.
cristalizados num gesto que fizemos
e que quisemos que fosse eterno.

mas todo o tempo é tempo demasiado.

Por hoje é tudo, doutor!

– David, a culpa não foi sua…



Prólogo: http://meraspalavrasammc.blogspot.com/2011/02/casa-do-violoncelo-prologo.html

Capítulo 1: http://meraspalavrasammc.blogspot.com/2011/03/casa-do-violoncelo-capitulo-i.html

Capítulo 2: http://meraspalavrasammc.blogspot.com/2011/04/casa-do-violoncelo-capitulo-ii-familia.html

Capítulo 3: http://meraspalavrasammc.blogspot.com/2011/06/casa-do-violoncelo-capitulo-iii-restos.html