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domingo, 9 de outubro de 2011

gato preto


lembras-te de quando fingimos voar?
o teu corpo mais propício a quedas
e o meu, quebrado no chão, a levitar.

hoje, ainda sinto nos ossos esse nosso voo improvável.
depois partiste e o mundo voltou. acordou-me o mundo,
com uivos de bombas, pintadas de demasiadas cores
para o nosso preto e branco mais do que habitual. acabou.

vidas tiveste sete, ora curtas ora longas,
sem nem mais uma te ser acrescentada.
pelo meio várias mortes te fizeram viver
outra e outra vez, assim, respectivamente .

moraste em várias casas, invariavelmente desfeitas
estiveste em milhares de corpos com quem nunca estive.

fizeste várias alterações de feitio ao teu pêlo
mas as garras, essas, permaneceram afiadas.

foste tu, mesmo naquelas escuridões escondido.
os teus olhos influenciaram sempre as minhas palavras,
de tal modo que se ouviu sempre o teu ronronar:

– rhum-rhum, rhum-rhum, rhum-rhum…

em todos os passados, que estive e não estive,
escutei o teu miar.
em todas as lutas, de que sempre me abstive,
sonhei o teu olhar.

podes voltar na tromba de um elefante
que anda de cabeça para baixo, se quiseres.
eu andarei contigo repetidamente, repetidamente…

podes estar embutido nos seios grandes
de centenas, milhares de pequenas mulheres
que eu procurar-te-ei obstinadamente, obstinadamente…

seremos um como antes: seremos nós sem os demais.
serei eu e tu, gato preto: um sonho mais do que antigo,
sem sentido para cega gente.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

limítrofe

quando passo na rua e vejo os velhos, em bancos antigos,
sentados,
eu absorvo aquela imagem, perspectivando os seus passados.

quando eu vejo as crianças: sorrisos e o céu dentro delas:
sem saberem que um dia terão os pés firmados no chão,
com tábuas limitadoras – decretos, moralismos e ditados –,
que rangem sempre que um anjo cai de novo,
eu simplesmente não percebo o simples.

tenho milhares de pensamentos voando livres.
claro, dentro dos limites da palavra liberdade –
que varia com a cor, o credo, o certo e o errado.

mas nunca percebo. nunca percebo!

tenho um peito frio, duro, à prova de bala.
sou a melhor máquina que consigo ser!

com orgulho, sigo andando, sem antever
o próximo passo…mas ele está programado.

e quando, na noite longa, avisto o unicórnio branco,
eu ligo as luzes de novo.

lá fora, um pranto de violino,
uma mulher que chora.

sou eu quem toca. é uma música,
um passado que a mente não quer.

– limítrofe! - dizem assim o meu nome a seco.

– é um beco, é um beco! – ninguém me ouve.

dias passaram em que eu ainda me escutava à porta.
mas todos os dias eu mudava. o tempo ia e voltava.

¬tic-tac-tic-tac-tic-tac.

hoje, por fim, apaguei todas as luzes
e deixei-me um bilhete para quando acordar:

“volto amanhã ou quando a vida me tornar”



Nota: O Transtorno de Personalidade Limítrofe, também muito conhecido como Transtorno de Personalidade Borderline, é definido como um grave transtorno de personalidade caracterizado por desregulação emocional, raciocínio extremista (cisão) e relações caóticas. Pessoas com personalidade limítrofe podem possuir uma série de sintomas psiquiátricos diversos como humor instável e reactivo, problemas com a identidade, assim como sensações de irrealidade e despersonalização. Com tendência a um comportamento briguento, também é acompanhado por impulsividade sobretudo autodestrutiva, manipulação e chantagem, conduta suicida, bem como sentimentos crónicos de vazio e tédio.

domingo, 2 de outubro de 2011

PALAVRAS EM GUERRA (À LAREIRA)



Encontrei a casa dela. Havia já passado, duas ruas antes, pela casa do meu amigo Damiano. Senti a sua presença, senti um choro. Senti um silêncio depois. A noite estava a chegar e o céu, numa tonalidade sanguínea, estava limpo. Viam-se as estrelas e um astro mais brilhante: Vénus, sorrindo aos amantes.

Para dar com a casa, tinha entrado na única taberna da aldeia. Lá, um dos homens, já um pouco bebido, traçou-me uma rota algo confusa que me levou até ali. Setenta e quatro, era o número da porta, marcado a giz num muro baixo, velho. Era ali. Hesitei.

Tentei acalmar-me; tentei por o rosto o mais natural possível. Não consegui. Decidi que ia contar até vinte e nesse exacto momento faria soar a campainha. Pareceu-me bem.

Seis, sete, oito, nove…Um rosto surgiu por detrás da cortina de uma janela isolada de todas as outras. Era uma mulher. Não era ela. Velha demais. Tentei sorrir: não sei se consegui.

O vulto desapareceu novamente, enquanto a cortina retomava a sua postura imóvel. Houve um silêncio ansioso quase eterno. Durou muito pouco. O rosto, o corpo daquela mulher aproximava-se agora na minha direcção. O eco do bater da porta ainda no ar. À medida que se aproximava, os seus olhos fundos, duas sombras num semblante pálido, prendiam-me como correntes de aço. Era magra e o cabelo, grisalho e levemente ondulado, ondulava com o vento. Tinha um longo vestido de fazenda, creio, que lhe tapava quase as pernas feitas de uma pele muito branca. Aproximava-se de mim: era a única certeza que eu tinha.

Parou diante de mim. Tremi. Fitou-me sem nenhuma expressão de vida dentro dela. Ouvi o meu respirar. Tinha uma carta na mão esquerda. Encostado ao muro, da parte de dentro da casa, estava um enorme estojo.

Não parecia nada surpreendida com a minha repentina aparição ao portão de sua casa, que fez abrir momentos depois. Saiu, como que flutuando. Passou junto a mim como que sem me ver. Nesse momento percebi pelo seu rosto de quem se tratava. Era a mãe dela! O tempo que me demorou esta análise, foi o tempo que aquela mulher precisou para pousar na rua o enorme estojo e pousar-lhe por cima um envelope branco. Passou novamente por mim e parou:

– Olá…foi o que a minha filha me pediu que lhe dissesse no dia em que aparecesse. – ainda tentei retribuir-lhe o cumprimento, fazer-lhe inúmeras perguntas e pedir-lhe, talvez, para entrar.

Não tive tempo para nada disto. A mulher virou costas, fechou o portão, entrou em casa, fechou a porta e as cortinas não mais se moveram. Silêncio outra vez. Milhares de pensamentos confusos na minha cabeça. Não sabia bem o que fazer. Não fiz nada durante algum tempo. Fiquei, ali, parado.

Era já noite e a rua estava deserta. Apenas eu, um enorme estojo em forma de garrafa e aquele envelope. Aquela rua não tinha qualquer tipo de iluminação, à semelhança das restantes por aquelas bandas. Lembrei-me que no bolso tinha uma pequena lanterna. Acendi-a. Peguei no envelope, com as mãos ainda tremendo. Abri-o, rasgando-o um pouco. Guardei-o no bolso. Olhei a folha meticulosamente dobrada em quatro. Li-a depois.

“Não poderia ser assim. Percebo, agora, que não poderia. Não consigo suportar o peso que aquela guerra me trouxe. Sou eu contra mim mesma e os outros do meu lado, contra mim.
Não poderia. Não, não poderia viver assim.
Esta aldeia é demasiado pequena. A sua presença está em todos os lados e eu, assustada, fui-me escondendo por de trás das palavras de uma voz incógnita.
Esta aldeia conhece-me demasiado. Não suporto mais a minha presença, a minha traição. Estarei em todos os lados desta aldeia, longe de todos os olhos acusatórios.
Amar-te-ei, sem nunca sequer te tocar. Irei para onde me levares, dentro deste violoncelo…”

O chão abriu-se abruptamente sob os meus pés. As lágrimas sufocaram as minhas palavras e diluíram as dela, escritas em frágil papel. Se tivesse a força de um deus, acabaria com o mundo que de mim a tirou.

– Vim para te buscar, mas o meu braço não te alcançou…

Foi inerte durante muito tempo até as minhas lágrimas secarem e o meu corpo se curvar. As minhas mãos foram agora mais cuidadosas. Abri o estojo negro. Vi-o pela primeira vez: o violoncelo. Toquei-o pela primeira vez, ainda que toscamente. Toquei-a pela primeira vez.

Foi assim que este violoncelo, que hoje partilho com o David, me veio parar às mãos. Depois da guerra, depois da minha inglória jornada voltei a casa, para junto da minha mãe, o meu pai havia morrido dois antes da minha chegada. Mas não voltei sozinho. Mesmo depois de me ter casado e os meus dois filhos, a Elisa e o David, terem nascido, ela esteve sempre entre nós.

Muita coisa mudou em Portugal depois da guerra. De professor passei a pedreiro. Nós, soldados, fomos tratados como o lixo de um império morto. O tempo que passámos longe correu muito mais depressa para aqueles que cá ficaram.

O tempo hoje passa mais lento, nos serões que passamos à lareira e eu tocando o velho violoncelo. Eu, ela, a minha mulher e os meus filhos.


Nota: este foi o último capítulo da narrativa "Palavras em Guerra", que serve de prelúdio para "A Casa do Violoncelo". Espero que tenham gostado. Boas leituras!

André Correia

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

o relógio e o poema


. acabei agora mesmo de colocar um ponto final neste poema, a que alguns por pudor chamar-lhe-ão outra coisa qualquer. acabei há pouco de o escrever. sinto que deixei algum peso para trás, sinto-me estranho: sinto-me eu. já estou deitado e já passaram alguns minutos desde que o acabei, enquanto isto, lá em cima, no velho escritório, o poema sente o frio provocado pela janela aberta. o vento parece querer levá-lo para outro lugar, mas lá fora é tão escuro e ele não se quer perder no meio de tudo. então resiste firme, fica quieto no meio do nada.

a mesa que o suporta é já cansada. já carregou o peso de muitos outros poemas, que por sua vez suportaram o meu peso. por vezes, ouvem-se pequenos estalidos que irrompem no silêncio, cliente habitual daquele velho escritório. para além deste poema abandonado, da janela baça pelo tempo e da mesa de madeira de carvalho, existem também outras duas personagens: um piano sujo de pó e um relógio parado, há muito tempo atrás.

dias – tão distantes – houveram em que o tempo avançava fielmente ao ritmo de compassos demorados, de melodias hoje esquecidas. o piano ainda as lembra, chora-as no fundo do seu silêncio perpetuado neste tempo parado. existem milhares de palavras evaporadas neste escritório. que nada dizem, que nada são. apenas sílabas mortas, juntas pela antiga razão que nunca conheci, separadas por uma pontuação a que nunca obedeci.

sou um poema,

um desses que já esqueci.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Os desafios do ensino de jornalismo

Porquê escolher jornalismo nos tempos que correm? A resposta é simples: precisamente para escolher. Na descrença que se alastra, na forma de um denso nevoreiro e envolve a sociedade portuguesa actual, torna-se fundamental fazer escolhas. E para isso são necessárias vozes, novas vozes – devidamente fundamentadas em vozes antigas e credíveis, mas com um novo timbre.
Não são raras as vezes em que ouvimos alguém, jovem ou não, porque isto da insatisfação não tem idade, culpabilizar os novos, os velhos ou, simplesmente, os mesmos do costume. Todos nós, em vários momentos, já fomos esse alguém que critica. Mas a verdade é que não podemos ser apenas mais “um velho do restelo”. Devemos ser mais do que isso.
Uma única voz pode influenciar o grito de milhares. Para isso é necessário trabalhá-la e sabê-la usar da forma mais inteligente que a condição humana nos permite. Para esse efeito enveredámos por este caminho: o de comunicar, o de comunicar bem. Não nos podemos restringir a reportar a mudança. Os mais diversos meios de comunicação são uma ferramenta fulcral para fazer com que o mundo se transforme. E o mundo é diferente todos os dias!
Cada leitor, ouvinte, espectador ou outro tipo de receptor que surja futuramente, é alguém que espera encontrar em cada comunicador, em cada emissor, um pouco de certeza e confiança. É aqui, neste ponto, que o papel de um professor de jornalismo assume maior protagonismo.
Todos nós, aqueles que optámos pelo estudo desta área tão volátil e maleável temos, provavelmente, aptidões que podem fazer de nós bons comunicadores. E digo provavelmente para não me comprometer… Mas ser criativo, escrever bem ou ser um bom falante, não é suficiente. Existe algo, que à partida para esta empreitada, ainda nos escasseia a todos nós. Algo que sustenta a humanidade e o universo tal como o conhecemos hoje: a ciência, a arte do exacto e do rigor.
Nenhum diamante surge lapidado, nenhuma ferramenta trabalha sozinha e numa mão nasce automatizada para qualquer que seja o ofício. A um professor de jornalismo cabe a tarefa de trabalhar e limpar a voz de tantos futuros comunicadores, usando a ciência que um dia, hipoteticamente, teremos.
E digo hipoteticamente para não me comprometer…

domingo, 18 de setembro de 2011

surreal conhecimento



as minhas mãos seguram o peso da possibilidade do meu corpo
e o meu pensamento voa livre sob convenções que desconheço.
para além do meu gosto a mais nada eu me ofereço,
porque os outros já me conhecem em demasia.

há quem saiba mais de mim do que eu próprio.
assim o afirmam tantas vezes, como que rindo
da minha incapacidade de me ver ao espelho.

talvez seja dos meus olhos mas não vejo nada.
não vejo nada para além de uma cegueira
comum a todos, provocada por tanto olharmos.

os olhos querem sempre ver o mundo inteiro
e o cérebro perceber o primeiro momento:
o zero.

aquilo que nos escapa normalmente não importa.
bato a porta. não quero olhar nos olhos.
o meu sonho assimila tão mais perfeitamente.

domingo, 11 de setembro de 2011

poema do poema


ser poeta é nascer de cabeça para cima
e sentir a vertigem a cada passo dado.
é reter subliminarmente um segundo diferente
e depois virar a página com a tinta ainda quente.

é ver nas estrelas terrores imensos
e nos contos de fadas finais inesperados:
um príncipe feio, um castelo desmoronado.

é sentir tudo e inventar o que falta cá dentro.
pelo meio dar um grito, só para se fazer notar.

montar o primeiro cavalo que passa,
de cabeça para baixo, e deixar-se escorregar.

- galopar! galopar! galopar!

sentir o andamento mais rápido
e o corpo a não aguentar. parar.

reler só mais uma vez.
assinar apenas se valer a pena.

se vês nele um sentido por dizer,
chama-lhe: o poema do poema.

pele sobreposta


houveram dias em que as cores se esbateram quase por inteiro
e em que o meu paladar nada podia perante as lágrimas velhas,
salgadas e cruéis,

porque eu não estava.

as pessoas eram, na sua totalidade incompleta, seres rarefeitos.
semelhantes a personagens dramaticamente paradas,
drasticamente mudadas pelos seus pensamentos
associados criminalmente com os meus,

porque eu não estava.

e a culpa da inércia não era de ninguém, era de deus:
fantasia doce e amarga, dependendo dos momentos,
que adiava constantemente o dia de me vir buscar.

era uma dor que não doía muito em lado nenhum
que o dedo dos outros pudesse em mim ainda magoar,

porque eu não estava.

hoje eu acordei e fechei a janela do passado.
ao fechar o álbum reparei que ainda tenho sorrisos,
palavras novas por colar.

então eu abri a porta.

primeiro estranhei,
depois deixei-me por fim entrar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

PALAVRAS EM GUERRA (IMPÉRIO MORTO)



“Mãe, escrevo-te esta carta para que saibas que estou bem, para que todos saibam que, eu, estou bem. Amanhã embarcamos para Portugal. Nem todos. Alguns como o Damiano, o meu amigo que fiz aqui, no mato, o amigo de quem te fui falando mãe, ficará aqui, como muitos outros, para sempre. Mas para sempre é um período de tempo que não conseguimos ver ou pensar mãe. Não consigo imaginar mais do que vintoito anos. É todo o tempo que tenho e que consigo sentir.
A guerra está terminada e estou mais vivo do que nunca mãe. Estou diferente. Tenho cicatrizes novas, tenho o sangue de outros que se me entranhou na pele, bem fundo, tenho mortes bem presentes na memória e tenho a minha vida – nunca valeu tanto a minha vida mãe.
Muita coisa se perdeu aqui para além de territórios, muito para além de um império moribundo. Perderam-se pessoas, que viverão para sempre ou que nunca mais viverão. Tudo depende de nós, daqueles que cá ficámos. Tenho a certeza que o Damiano viverá na minha lembrança, pelo menos por mais vintoito anos. É todo o tempo que consigo imaginar.
Sinto a tua falta mãe. Sinto a falta do pai, uma saudade real, que provavelmente nunca conseguirei verbalizar. Sinto tanto a vossa falta mãe. Mas antes de voltar a casa, antes de as nossas palavras ditas, misturadas com o teu choro saudoso de mãe, antes de de eu e o pai nos abraçarmos em silêncio, naquele silêncio nosso que só nós ouvimos o que diz – diz tanta coisa aquele nosso silêncio – sempre baixinho, antes de tudo isto mãe, eu terei de procurar por mim. Fico longe da nossa casa, fico a bastantes quilómetros de distância…
Mas fico perto. Fico neste beijo que te deixo mãe.
Voltarei em breve. Promete este teu filho que te ama mãe. Prometo eu, longe, José.”


Foram mais ou menos estas as palavras que escrevi para a minha mãe. Foram mais ou menos estas as palavras soluçadas, repletas de orgulho, que o meu pai, os vizinhos, toda a gente que consigo imaginar, devem ter ouvido da boca da minha mãe.
Chego por fim a esta aldeia estranha, como que deserta. Para trás ficaram a carreira e a sua marcha lenta, tornada ainda mais vagarosa pelas histórias, pelas rezas das viúvas. Para trás ficou o atrelado, almofadado com palha, rebocado por um velho e pequeno tractor, conduzido por um velho, pequeno e simpático homem que me trouxe até aqui: esta aldeia, da qual nada conheço. Apenas ela e nem ela conheço…


terça-feira, 30 de agosto de 2011

amplificado

sou dono de milhares de cores, aprisionadas em palavras,
e existo em várias personalidades, em distintos sujeitos.
tenho o preto e tenho o branco, acinzentados pelo tempo.
sou eu e eu pelo meio: um escreve e o outro somente relê:

nunca estamos de acordo. nunca somos um só ser.

escuto várias vozes, mas ninguém conhece o caminho.
vou assim, improvisando ao sabor do momento,
aguardando pelo líder ressurgido do denso nevoeiro.

sou os oceanos. sou as terras que vi primeiro.

sou as folhas secas de Novembro e as flores novas de Abril.
tenho todo um povo dentro de mim, que não sabe bem o que quer.

sou Portugal. sou um cravo, pousado num peito de mulher.

domingo, 19 de junho de 2011

PALAVRAS EM GUERRA (DEPOIS DE ABRIL)




De Lisboa até Beja passam-se três horas e meia na carreira. O ar é pouco e a gente muita. A velha carreira é lenta e o tempo também. Pela janela a paisagem apresenta-se quase imutável. A planície, resplandecente pelo sol alto da tarde quente, parece infinita. A minha cabeça, pousada sobre a minha mão cerrada, tem um peso mil vezes mais pesado que o seu peso: pensamentos.

Os meus pensamentos parecem infinitos, mas todos findam na mesma imagem, no mesmo rosto, na mesma voz que nunca escutei…mas conheço-a. Conheço-a tão bem. Falou comigo tantas vezes naquele mato mortal. Pediu-me tantas vezes que voltasse e eu, sem saber de mais nada, sabia apenas que um dia voltaria. Não era da razão que nascia a promessa, era da minha vontade rodeada de balas.

Trago no bolso da camisa uma fotografia, a única que tenho dela. Esteve sempre perto de mim, em diferentes bolsos. Na parte de trás tem uns rabiscos. Tem o nome do Damiano, escrito numa letra confusa, e tem o nome dela: Maria: escrito numa letra mais bela. Foi a última coisa que o Damiano fez antes de morrer. Escreveu o seu nome ao lado do nome daquela mulher, que já lá estava escrito ainda antes da nossa partida para a guerra, escrito ainda antes da chegada daquela guerra que levou o Damiano e me deixou a mim esta fotografia.

Olho-a mais uma vez. Demoro-me. Falta pouco para chegarmos a Beja. Guardo-a de novo. À minha volta os velhos vão falando. Não os oiço. À minha volta ninguém me chama. Consigo ouvi-la tão bem…

quarta-feira, 15 de junho de 2011

LEIAM E VOTEM

Decidi concorrer ao concurso "Conte Connosco", organizado pelo Banco Santander, com o trabalho "Palavras em Guerra". Vamos pessoal, leiam e votem, caso tenham gostado.

link: http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe.php?id=686

Quero também agradecer pelo fantástico número de visitas ao blogue durante este mês.

A todos vocês o meu muito obrigado!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

PALAVRAS EM GUERRA (CARTAS PARA A MINHA MÃE)


Luto por Portugal. Luto por todos nós e por nós sobrevivo, mãe.

Gostava de ver o teu orgulho ao ler estas palavras, que o meu rosto inexpressivo não te poderia nunca dar. Gostava de ser menino outra vez, gostava de pousar a minha cabeça no teu colo de novo. Gostava de poder chorar. Como eu gostaria mãe.

Aqui sou eu e os outros: uma guerra infindável entre soldados, que não são mais que meros peões. Tão cansados. Sinto-me cansado, mãe. Não digo que tenho medo, mas sinto medo. Não poderei nunca dize-lo. Porque o medo sem ser dito é apenas uma noite de Inverno. Cortante, arrepiante.

As noites aqui são quentes e os dias gelados, mãe. Penso nas histórias que me contavas e nos beijos que me davas para eu adormecer. Penso neles durante estes escuros dias. Mato homens diferentes, iguais a mim durante o dia mãe. A guerra é assim. Sou eu e os outros, separados por balas. Sou eu sem eu mesmo, matando, matando. É a minha voz sem o meu ímpeto, gritando, gritando.

Espero poder voltar. Prometo que voltarei mãe. Espero que me reconheças ainda quando voltar mãe. Não prometo que seja eu.

sábado, 11 de junho de 2011

AS PEDRAS DO VALE


fomos. somos. seremos.
seres fielmente enganados,
todos os dias trocados de mundos.

pessoas correm lá fora, cortantes
para os meus olhos programados.

segundos. horas. dias a fio,
permanecemos assim parados.
eu sem mim, eu sem nós
e tu, ignoras de longe, em silêncios profundos
todos os nomes,
todas as ruas por que passamos.

nós, contigo distante.
nós, um ser ofegante
dormindo ao abrigo das mentiras prometidas.

nós, sempre assim.
eu, agora por fim:
só, sem saber bem de ti…

sabendo apenas que nesse nós existi.

domingo, 5 de junho de 2011

PALAVRAS EM GUERRA



O dia volvera chuvoso e hoje jogava o Benfica. A guerra parava para respirar, para recuperar o seu fôlego mortal. No acampamento as coisas estavam calmas. Um silêncio de Domingo, por vezes cortado com gritos de golo. Era do Eusébio. Todo o regimento explodia de alegria, todos menos eu. Eu apenas escrevia. Mais uma carta: beijos caligrafados que tocam a face que nunca toquei.

Faz já mais de um mês que o meu companheiro, e único amigo, o Damiano, morreu. Uma mina destruiu o seu corpo perante os meus olhos parados, como que presos. Conhecera-o aqui: no mato que não conhecíamos. Éramos muito diferentes. O Damiano falava muito, ria muito, contava histórias da sua terra, do seu mundo, da sua terra…

Costumava falar muito da sua família: da sua mãe, do seu pai morto e dela, tão viva na sua lembrança. Maria. É este o seu nome, que para sempre me unirá ao Damiano. Era frequente ele falar-me dos sonhos que tinha. Todos eles envolviam a Maria. Descrevia-a de forma tão real. Eu não dizia nada, sorvia apenas todas aquelas palavras que iam criando um rosto, alguém belo no meu pensamento.

Estávamos há três semanas em Angola quando o Damiano me pediu, pela primeira vez, para escrever uma carta endereçada à sua moça. Mostrava-se um pouco embaraçado. Não sabia escrever. Sorri-lhe. Disse que escrevia. Ele agradeceu. Foi assim que começou.

Ele ditava tremulamente tudo aquilo que sentia. Enquanto ditava dizia-me constantemente: é uma bela moça; uma moça às direitas. Pedia-me sempre que fizesse uma letra bonita: a mais bonita que houvesse no mundo: pedia ele. Enquanto eu redigia a carta, o Damiano dizia que gostava de ter sido professor: como eu. Pediu-me também que o ensinasse a escrever. Já assinava o seu nome antes de morrer.

Os combates eram duros. A morte estava em todo lado. Nas pedras, no céu, nas árvores, nas águas. Enquanto furávamos pelo mato pisávamos cadáveres, companheiros e inimigos mortos lado a lado. Nos nossos olhos: cansaço; medo; quase morte. Era à noite, no acampamento, que nós soldados, nós homens, nós meninos assustados, encontrávamos algum pouco descanso. Alguns rezavam, outros cantavam. Eu escrevia. Antes escrevia para matar o tempo, agora escrevo para que as minhas palavras vivam no tempo: vivam um dia no coração dela.

Hoje é uma dessas noites, em que, esgotado, escrevo. Hoje o Damiano já não me dita as palavras, hoje as palavras são minhas: sou dono delas e entrego-lhas. Envio-lhas para longe, para Portugal. Para uma aldeia pequena perto de Beja, da qual nada conheço: apenas ela e nem ela conheço. Apenas uma fotografia, que encontrei metida nas coisas do Damiano.

É certo que por esta altura podem estar a pensar que o que faço é errado. Talvez seja mesmo errado. Mas mais do que errado, é inevitável. Ao longo de todas as cartas que lhe escrevi, de todas as que recebi e li para o Damiano, de todas as histórias contadas com palavras doces, de todos os detalhes narrados com pitadas picantes, esta mulher passou a fazer, inexplicavelmente, parte de mim. E eu…eu não a posso remover. Depois de Damiano morrer, tentei parar. Mas não consegui. Continuei a escrever-lhe cartas e mais cartas. Todas diferentes, todas iguais. E o mais espantoso: as minhas cartas tiveram retorno. Ela sentia o mesmo. Estava sozinha e eu, de maneira diferente, também estou.

É certo que estou rodeado de gente, mas estou sozinho. A vida por um fio: um fio de cabelo dela que nunca toquei. Hei-de voltar um dia, prometo isto a mim próprio. Tenho de a conhecer. Tenho de a ver: saber que é real.

Por isso vivo, por isso escrevo, por isso luto por Portugal.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A CASA DO VIOLONCELO - CAPÍTULO III - RESTOS DE REALIDADE




Passaram-se tantos anos desde aquele dia, mas para mim nenhum deixou marca. Nenhum trouxe ar. Nenhum te trouxe de novo. Meu querido David.



Passaram-se tantos anos mas ainda não consegui desprender-me do mundo: da minha casa, deles sobretudo: o meu filho e ela.

Todos os dias observo todos os movimentos que executam. Vejo-os acordar, vejo-os sentados, vejo-os ocupados com nada e depois vêem-me a mim, através de fotografias, mas não me falam. Eu falo com eles. Peço-lhes desculpa e depois choro. Eles não vêem.

Corpos vazios de propósitos vivem,
Comandados por suas células mortas.
Sons esguios, estranhos, me dizem
Velhos ditados que quase nem notas:

“As pessoas sempre seguem o caminho já traçado”

As células estão mortas
e o espírito foi roubado,

por alguém sem culpa sua,
num momento desencontrado.

Por vezes o amor mata,
por vezes o verso é feio,

mas o poema é só um corpo,
por vezes partido ao meio.

Uma vida com falsas razões
movida por linhas confusas:

sensações; palavras obtusas;

células vivas num corpo morto.



Por vezes sinto-me vivo numa realidade morta. É como se tudo aquilo em que toco, fosse vazio. O tempo traiu-me e o espaço encolheu. Vivo preso a esta casa, tal como o violoncelo vive preso ao canto do meu quarto.

A minha mãe por vezes tenta explicar-me mas eu não quero ouvir. Eu quero viver. Eu quero deixar o passado para trás. Eu queria que aquele dia não tivesse existido, mas a nossa vontade é apenas vontade. É algo formado de papel molhado. O meu pai não será amanhã mais do que a fotografia que é hoje.

Há um corpo que se mexe por mim,
uma boca dizente, inventora de palavras,
significados molhados sem fim.

Eu não sei se sou diferente,
se sou igual, ou se um reles animal
domesticado, preso por gente.

Por vezes eu sinto a corda que aperta
e a alma que parece querer explodir,
criar milhares de estilhaços,
pedaços cortantes que atingem o olho cego.

Não nego que gostava de ser um desses bocados,
digo-o com o meu silêncio rouco pelo tempo forjado.
Mas os pedaços eram cobiça,
eram barcos de papel rasgado.

O mundo sabe bem que no fundo eu sou manso,
eu sou mais uma vida comandada pela preguiça.

Ao ser isto assim assim,
em mim quase tenho descanso.

Eu não sou mais do que finjo ser,
sempre tão recto, sempre tão certo.
Por vezes o mundo parece saber
quase que correcto, que eu não estou perto,

que eu não estou perto...



Mas a vida tem de continuar. O meu pai havia de gostar que a nossa vida continuasse. Sei que sim.



A Elisa não costumava falar muito, havia nela algo que era escuro, algo que era só seu. Algo que eu não compreendia. Algo que a minha mãe fingia não compreender. Algo que o meu pai se esforçava por esconder. Durante vários anos foi assim.

Não tinha amigas, apenas a Francisca, sempre se deram muito bem. A minha irmã era mais velha mas gostava de ouvir as histórias da Francisca. Eram histórias em que eu entrava, histórias que nunca a minha irmã tinha vivenciado. Algo lhe foi roubado, algo que eu não compreendia.

- Porque não vens connosco? Vamos passear. A Francisca também gostava que viesses – dizia eu, conhecendo de cor a sua resposta.
- Não posso…
- Porquê? É Domingo! Não trabalhas hoje, se quiseres peço eu ao pai...
-Já disse que não quero!

Nesse momento, algo me fazia desistir, algo que eu não compreendia, talvez fosse o cansaço, talvez fosse a certeza de que o meu esforço nada valia contra a natureza das coisas. Por vezes eu não compreendia a natureza das coisas. Natureza tão pútrida aquela! Mas naquela altura, eu apenas desistia de a perceber.

Antes de sair, pedia dinheiro à minha mãe para um gelado, para uma laranjada, para o que quer que fosse, afinal nada disso era realmente importante. Depois saía, o meu passo era rápido. Tinha todo o tempo do mundo, mas o ritmo da romântica máquina, que em meu peito batia, fazia com que o tempo corresse rápido. Corresse contra a minha vontade, corresse contra mim, corresse contra nós.

Costumávamos passear junto ao rio, depois subíamos, em direcção à Trindade, calmamente, mas num passo acelerado, típico de duas almas jovens. Na rua existia muita gente. Todo um universo de gente: casais idosos passeando naquele Outono, jovens em grupos com rumos quase tão desorientados como as suas palavras, vendedoras de castanhas com as mãos quentes pelo fumo brando, putas encostadas em cada esquina de uma rua duvidosa. Pessoas bem vestidas, pessoas em farrapos, pessoas gordas, pessoas magras, pessoas ricas, pessoas pobres…pessoas.

Nós seguíamos, naquela mancha de gente, coisa de Domingo, olhando as montras, olhando as esplanadas, olhando tudo, olhando nada. Olhávamo-nos mais que tudo.

Tanto tempo depois, ainda não me cansei de a olhar. Parece mais bela todos os dias, mas igual a si mesma em todos eles.



Lembro-me bem do dia em que conheci realmente o meu pai,



Lembro-me bem do dia em que conheci realmente o meu pai,



Sinto falta do meu pai.

Restos de realidade marcam feridas de presença.
Deixadas por meus pais,
deixadas por meus ais,
e pela tua boca calada.

Não, eu não serei mais!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

FOLHA EM FALTA NO VELHO CADERNO




Eu não gosto de ser assim
tão parecido contigo
tão similar
tão regular
tão tu
tão nada

pego na caneta que bra da
e as pa la vras surgem sós

apagam-se riscam-se
e depois reaparecem
nós poetas somos seres
palavras que se desvanecem

eu quero fazer um poema NOVO
diferente de TUDO
igual a nada NUNCA feito

mas a folha está imprópria
contaminada pelo veneno com que me morro
fácil
sempre a preceito

CORRO

no canto o dedo marcado
do pedinte sujo da rua

FUJO de mim próprio

deixo-te este poema inacabado
esta folha que agora é tua

terça-feira, 3 de maio de 2011

EU NO TEMPO DAS COISAS



Por vezes ao meio da vida tu és parado:
jogo sempre rotineiro,
quase decorado.

Falta de vontade, de jeito,
de habilidade para agir
provocam este nosso entorpecimento.

Vários meteoros cheios
vão continuar a cair
no nada, no meu nome ao esquecimento.

Molhado,
diluído no teu irremediavelmente.

Que porco é tudo isto,
estas sociedades de gente
ao serviço de um líder tremente.

Eu preferia nunca ter visto
esse crime de que me acusam,
mas o sangue ainda está a quente
e o meu é um pouco diferente…

é teu, com pedaços meus alugados.

Estes são versos não apagados,
de um poema,
de um registo criminal.

De um poeta que quis ser puro,
de um homem preso afinal

no escuro de si mesmo.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

PUNHADOS DE PÓ



Uma voz sombria vai falando impotente ao vento,
tentando matar o tempo desta hora de nós vazia.
Cruel. Amarga, mas sem saber a nada
que os meus nomes possam apelidar.

A minha mão agarra um punhado de pó de mim.

Sou assim, confuso, disperso em punhados de pó
que se afastam por bem desses teus, em verso,
originando poemas calados, que têm apenas beijos,
nossos, separados por milímetros…

que nunca se tocarão.

Porque nós somos somente punhados de pó,
levados por vezes na mão fria e tão descrente
que deixa cair dia a dia grão a grão: eu e mais eu;
tu e mais tu. Caímos gradualmente pelo chão

em locais tão distantes e remotos do nós mesmos.

O tempo fez-nos errantes, direitos mas tortos.
Por vezes parece haver a nova mágica solução,
mas não. Apenas ilusão, apenas mais uma mão
que remexeu nossos punhados…

que nunca se tocarão.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

CALIGRAFIA CONFUSA




A vida é uma peça
teatral, feita de actos vagos
de verdade: mentira doce.

Fácil,
mais fácil que ficar a olhar
o momento verdadeiro: vazio.

Camuflagens disfarçam o nada,
beijos substituem sentimentos confusos.
Corpos perdidos na estrada
traçam linhas, sentidos tão obtusos.

E um poema não é mais que o reflexo
dessa mesma confusão.

E no final,
quando o olho perplexo
concluo...

não é letra da minha mão.

terça-feira, 12 de abril de 2011

JASMIM DE TUNES




As flores que vendia não eram livres,
tinham um perfume misturado com ranço.
A liberdade vivia em mim sob forma de descanso
mortal: um início para o fim.

Foi preciso queimar meu corpo
e verter as cinzas no jasmim.

Essa flor é agora comum punho
que avança alastrando a palavra sufocada.

Liberdade, liberdade, liberdade!

Antes era palavra num rascunho,
agora é dívida cobrada.

Tunes é agora esta flor
e as pétalas serão de Tunes.

O vermelho é do meu sangue
vertido no grito a que te unes.

terça-feira, 5 de abril de 2011

NÓS EM PENSAMENTO


Havia chuva que não molhava o meu corpo,
caía no chão para depois evaporar fria.



É da natureza das coisas o quente ebulir
mas no frio tão prudente deus fez-se desistir:
fez evaporar estas contaminadas águas,
ainda que cortantes, ainda que geladas.

O dia não foi bem,
como eu tinha executado mentalmente.
Actos que eu não queria,
palavras revoltas: cruéis:
manifestaram-se contra mim,
contra minha própria vontade.

Ela,
não sei se esperando ou não,
não chorou as mesmas lágrimas,
secas, que eu forcei.

Houve um virar de costas,
houve um soluço meu
e depois houve silêncio…

depois morreu.
Poema triste!

Pela janela do seu quarto
assistiu a tudo uma criança.
Atrás dessa janela,
para além do seu quarto,
alguém se trava de razões.

Um copo que estava cheio
e que agora é nada.

Uma criança como eu,
impotente, olhando a estrada.

Eu homem e ela mulher
crianças comos agora.
Um dia, quando ela disser,
sairemos ao mundo lá fora

como dois desconhecidos que somos.
Como dois pássaros no Inverno,
falaremos daquilo que fomos,
rasgaremos o amor eterno
e seremos um pouco por um momento…

seremos nós em pensamento.

sábado, 2 de abril de 2011

A CASA DO VIOLONCELO - CAPÍTULO II - FAMÍLIA E SOLIDÃO






Quando eu nasci, o meu pai estava longe. Sempre trabalhou fora. Muitos, como ele, haviam imigrado para puderem dar às suas famílias uma vida melhor. França, Venezuela, Brasil, América, Canadá. O meu pai trabalhava como pedreiro na fria Alemanha. Acho que o meu pai nunca foi um grande pedreiro. O que o fazia feliz era o violoncelo, aquele violoncelo.

Sempre que nos vinha visitar durante as férias, uma semana no Natal e outra no Verão, passava os serões a tocar. A sala, a lareira e a minha mãe, sentada, comigo no colo mostrando-se feliz. A minha irmã Elisa, raras vezes ficava ali connosco, apenas quando, por ordem da minha mãe, não tinha trabalhos da escola para fazer. A minha irmã estava, sempre, onde mais ninguém estava. Sempre longe do meu pai.

A minha irmã era mais velha do que eu sete anos. Lembro-me de ser pequeno e vê-la ajudar a minha mãe. Nunca foi de muitas falas, mas brincava muito comigo. Retirando as vezes em que o meu pai estava. Nesses dias estava cansada ou tinha muitos trabalhos da escola. Eu ainda não sabia o que eram trabalhos da escola. Puxava-a. Ela não vinha.

Cresci numa aldeia pequena, a uns vinte quilómetros da cidade. Cresci sem a presença do meu pai. Fui bebé e ele não viu. Fui criança e ele não estava. Tornei-me homem e ele já havia morrido. A minha mãe sempre tentou que gostássemos do nosso pai. Eu tentava. A Elisa acho que não.

Quando entrei para a escola, todos os meus amigos contavam histórias que envolviam um pai. Nas minhas histórias existiam menos personagens: eu, a minha mãe, a minha irmã e o meu tio Alberto. O meu pai costumava dizer que o meu tio era um zé-ninguém. Não sei. Mas cá em casa todos gostávamos dele, até a Elisa.

O meu tio gostava de fazer as pessoas sorrir. Sorria bastante. O tabaco, tornara-lhe os dentes amarelos. Mas nem por isso o seu sorriso era menos contagiante, menos verdadeiro. Aparecia, pontualmente, em nossa casa só para ver se estava tudo bem. Não avisava. De todas as vezes, a pedido da minha mãe, acabava por jantar connosco. Tinha cerca de quarenta anos, mas tinha a cabeça já bastante calva.

Durante esses jantares ríamos bastante. Depois ele falava com orgulho do meu pai. A Elisa despedia-se dele e ia para o seu quarto. Tinha muitos trabalhos da escola. Depois a lareira morria, os temas faltavam-lhes, tanto a ele como à minha mãe. Silêncio. O meu tio olhava para o relógio e dizia:
-Bem, está na minha hora. - a minha mãe acompanhava-o à porta. Demoravam-se um pouco. A porta batia. Depois, eu, com os pés em cima da cadeira bamba pelos anos, ficava a ver pela janela o corpo do meu tio afastar-se na rua. Para lá daquilo que o meu olhar alcançava, o meu tio apanharia o comboio e iria para casa. Vivia longe. Morava na cidade, no Porto. Sozinho.


Eu devia ter mais ou menos cinco anos, quando, num dia de férias, num dia qualquer, o meu pai me começou a ensinar a tocar. Naquele momento fomos filho e pai. Eu sorvia todas as suas palavras. Os meus olhos seguiam as suas mãos que faziam dançar o arco. Ele deslizava, leve, nas cordas puras que liam os seus movimentos e propagavam no ar notas belas que arrepiavam o meu corpo.

Eu era ainda tão pequeno. Mas a minha vontade era grande. Eu queria, um dia, puder tocar para muita gente. Eu queria que um dia o tempo, o mundo, parasse só para me ouvir. Devemos ter cuidado com aquilo que desejamos.

Aos doze anos já tocava perfeitamente. O meu pai tinha orgulho em mim e um dia, em Dezembro, durante as suas férias de Natal, inscreveu-me na escola de música que ficava na cidade. Foi nesse dia, que pela primeira vez a vi.




Lembro-me do dia em que o meu pai nos deixou. Lembro-me bem. Eu fazia cinco anos nesse dia. Naquele dia rimos tanto. O mundo era nosso, o tempo estendia-se para nós. Só para nós. Depois, depois aconteceu.

Algum tempo antes, não sei bem porquê, o meu pai ficou diferente. Creio que ficou assim depois da minha mãe lhe ter falado no meu avô. O meu pai não gostava de falar nesse assunto. Nunca conheci o meu avô, morreu muito antes de eu nascer. Como? Isso não sei. Apenas lhe conheço o nome: José. De cada vez que se tocava no nome do meu avô, o meu pai ficava invariavelmente mal disposto. O dia era estragado subitamente. Como nuvens negras que surgem, repentinas, num dia de verão.




Nesse dia, em que a vi pela primeira vez, nós éramos ainda somente crianças. Almas cheias de sentimentos tão puros, incapazes de saber amar. Naquele dia, ela estava com a mãe, que a puxava pelo braço. Os nossos olhos sorriram abertamente e os segundos estenderam-se mais que o habitual. Depois, depois o meu pai, feliz dizendo-me:
- A partir de hoje serás um músico à séria! – orgulho na sua voz.

Sempre tinha sonhado com aquele dia. Sempre quisera orgulhar o meu pai. Eu julgava que aquele velho violoncelo nos poderia tornar pai e filho. De verdade. Como nas histórias de pais e filhos. Eu estava errado. A história foi tão diferente. Pouco depois, o meu pai regressou definitivamente para nossa casa. Quando soube, a Elisa foi mármore por momentos.


Três anos depois de ter entrado para a escola de música, eu e ela, a Francisca, já namoriscávamos. Não sabíamos bem como se namorava a sério, então brincávamos, namoriscávamos, fingíamos ser grandes. Por vezes dávamos beijinhos. Não gostávamos. Era estranho. Mas de uma coisa ambos sabíamos, os nossos olhos sorriam muito, sempre que estávamos juntos. Sorriam horas. Talvez apenas segundos, estendidos, prolongados pela nossa vontade. Como eu gostava que tivesse sido sempre assim. Não foi.

Por vezes a Francisca, sempre após as aulas na escola de música, vinha para minha casa. De todas as vezes eu pagava o seu bilhete. Eram trinta minutos de viagem até minha casa, naquele velho autocarro. Durante esse tempo, os nossos olhos sorriam sempre, contavam segredos, palavras que ainda não compreendíamos bem. Depois, quando chegávamos a minha casa, a Elisa logo metia conversa com a Francisca. Trocavam risos e palavras sussurradas. A Elisa era mais velha, mas nunca a minha casa conheceu algum amigo, algum namorado seu. Era muito fechada, algo em si foi escuro até aquele dia. O dia em que o meu pai morreu.


O meu pai tinha regressado para Portugal havia dois anos. Desde essa altura que o meu tio não nos visita. Desde esse dia em que o meu pai chegou, que a minha irmã se fecha cada vez mais no seu quarto. A minha mãe, essa, esforça-se para que o meu pai, eu e, também, a minha irmã sejamos felizes. Era frequente ver o meu pai irritado com a minha mãe. Não sabia bem porquê. Era frequente ver a minha mãe a chorar. Não sabia bem porquê.

A Elisa já trabalha. Não para ajudar os meus pais, porque afortunadamente sempre tivemos uma vida boa. Acho que é apenas uma forma que a minha irmã arranjou para passar menos tempo em casa.

Eu tenho agora catorze anos. A Francisca é um pouco mais nova que eu. Gostámo-nos cada vez mais. Os nossos olhos partilham cada vez mais segredos: amor que não conseguimos verbalizar. Já não somos crianças, ainda não somos adultos. Somos dois. Somos um. É como se fossemos perfeitos irmãos. Não de sangue, mas de alma.





Hoje saí à rua. É como se fosse invisível. Ninguém parece notar a minha presença. Ninguém parece saber que hoje faço dezoito anos. Mas todos sabem!
Junto à Ribeira as pessoas confundem-se. As cores misturam-se, as caras são dissolvidas em água nos meus olhos. O ruído é constante, suave, é quase morto. Na ponte D. Luís, o metro arrasta-se num movimento quase parado. Do outro lado, o sol pousa-se no rio.

O meu passo é inconstante. Ora é rápido, ora é lento. Afasto-me das pessoas que vêm em direcção a mim. Pareço ser invisível, mas não sou. Vejo-me, apenas eu noto a minha presença.

Enquanto caminho, lembro-me de outros passeios, de outros dias, de outras pessoas: o meu pai. Lembro-me quando passeávamos no parque. Eu era tão pequeno. Hoje sei que não verei o seu rosto, mas a sua sombra caminha a meu lado. Como que me protegendo, como que me sorrindo. Muito.

Passaram-se muitos anos desde que o meu pai partiu. Mas a vida parece ter parado naquele dia. A minha mãe parece não ter envelhecido um só ano. Eu pareço ser a mesma criança, mas não sou. Eu sei que não sou. O tempo muda, leva, traz, passa simplesmente, e hoje, hoje eu faço dezoito anos.

No regresso a casa penso também na minha avó, penso na minha tia Elisa. Há já bastante tempo que não as vejo. Desde que o meu pai partiu que não me lembro de as ver. Morámos tão perto, mas é como se um muro nos separasse. A minha mãe diz que um dia eu entenderei tudo.




Lembro-me de um dia em que o David não apareceu na escola de música. Ele nunca faltava. Nesse dia, a aula pareceu-me mais longa. Pensava no que se teria passado. Olhava para o relógio. Pensava nele. Olhava novamente o relógio. Depois, depois não pensava em nada.

À saída da aula encontrei o meu pai. Perguntou-me como tinha corrido a aula.
- Bem…

Não era frequente o meu pai vir-me buscar. Não passava muito tempo comigo sequer. Trabalhava muito. Era um daqueles vendedores ambulantes. Vendia enciclopédias, edredões, seguros, mil e um tipos de cremes medicinais. Viajava muito. Eu e a minha mãe estávamos sempre sozinhas. Mas foi por vontade do meu pai que entrei para a escola da música. Para ser sincera, nunca achei muita piada às aulas. Achava-as chatas, até ao dia em que o David se matriculou. Hoje a aula foi chata.

Morávamos perto da escola e portanto fazíamos o percurso para casa a pé. Não falávamos muito. Não tínhamos conversa. Gostava de puder contar ao meu pai que tinha um namorado. Mas as palavras não me saíam. De resto, também nunca tinha conhecido o pai do David. Deve ser da natureza das coisas os pais serem os últimos a saber deste tipo de coisas.

Quando chegámos a casa, a minha mãe perguntou-me como tinha corrido a aula.
– Bem…
– E o David? – perguntou sorrindo.
– Não apareceu…

Nesse momento o meu pai apareceu e nós calámo-nos. Disse que estava de saída. Tinha muito trabalho para fazer. Disse que gostava muito de nós, para eu me portar bem e obedecer à minha mãe. Deu-me um beijo na testa, despediu-se da minha mãe com um beijo e saiu. Regressa daqui a uns dias.




Houve um dia que mudou para sempre as nossas vidas. A minha e da Francisca, sem que ela soubesse. Um dia como outro qualquer, tinha guardado para nós algo terrível. Preferia que os deuses tivessem apagado aquele dia dos seus cadernos. Mas ele existiu teimoso. Amargo. Duro. Quase mortal, mas deixando-nos viver.

Nós éramos ainda tão jovens, tão simples. Aquele dia foi tão complicado. Um abismo que se mostrou perante nós. Uma espada que nos cortou, marcando para sempre as nossas existências. Vida e morte marcada por aquele dia.





Quando eu era mais pequeno costumava perguntar muito pelo meu pai. Hoje não pergunto nada. Calculo a dor da minha mãe de cada vez que fala nele. Pego nessa dor e junto-a à minha. Juntas entendem-se e parecem mais pequenas.

Nunca ninguém me culpou de nada, mas naquele dia eu fazia cinco anos. Se não fosse aquele dia talvez o sorriso do meu pai ainda estivesse presente em algo mais do que uma fotografia. No meu íntimo eu sabia que a culpa era minha. Só isso justificava a distância da minha mãe. A ausência da minha avó e da minha tia. Só isso explicava que o tempo tivesse parado para mim.





Capítulos anteriores:

Prólogo: http://meraspalavrasammc.blogspot.com/2011/02/casa-do-violoncelo-prologo.html

Capítulo I(Diferentes Manhãs): http://meraspalavrasammc.blogspot.com/2011/03/casa-do-violoncelo-capitulo-i.html


Obrigado a todos vocês que me lêm!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

GAVETA




Por vezes tenho palavras tão perfeitas
que chego quase a questionar a sua natureza.
São verdade, são mentira de ocasião
feitas para que o mundo melhor me adormeça.

Tenho o mundo numa mão,
várias dores na minha cabeça.

Restos de realidade marcam feridas de presença.
Deixadas por meus pais,
deixadas por meus ais,
e pela tua boca calada.

Não, eu não serei mais!

Tenho vários poemas numa gaveta fechada
colocados em ângulos sombrios.
São corpos quase mortos numa estrada
roubados de seus sangues frios.

Não, eu não os quero…

mas a minha vontade é tão vaga
perante tão concretas e alinhadas palavras.
Elas são aos milhares e eu?

Sou teu sem o meu apoio…

quinta-feira, 10 de março de 2011

FOTOGRAFIA




Eu sou uma fotografia. Uma daquelas em que ainda sorria. Para além de mim, existe um corpo semelhante, que se move como gente. Seria fácil pensar que eu sou o corpo, seria fácil dizer que estas palavras são realmente minhas. Mas como posso ser eu este corpo, se o tempo em que vivo, se o tempo em que penso, é afinal já tão distante? Não, eu não posso ser movimento. Eu sou apenas a fotografia que vejo todos os dias, a mesma que o pó cobre cruel dentro da tua lembrança.

Há um corpo que se mexe por mim,
uma boca dizente, inventora de palavras,
significados molhados sem fim.

Eu não sei se sou diferente,
se sou igual, ou se um reles animal
domesticado, preso por gente.

Por vezes eu sinto a corda que aperta
e a alma que parece querer explodir,
criar milhares de estilhaços,
pedaços cortantes que atingem o olho cego.

Não nego que gostava de ser um desses bocados,
digo-o com o meu silêncio rouco pelo tempo forjado.
Mas os pedaços eram cobiça,
eram barcos de papel rasgado.

O mundo sabe bem que no fundo eu sou manso,
eu sou mais uma vida comandada pela preguiça.

Ao ser isto assim assim,
em mim quase tenho descanso.

Eu não sou mais do que finjo ser,
sempre tão recto, sempre tão certo.
Por vezes o mundo parece saber
quase que correcto, que eu não estou perto,

que eu não estou perto...

terça-feira, 8 de março de 2011

O MURO




Para além deste muro,
para além da tua compreensão
estou eu e esta nossa recordação.
Sentados escondidos no escuro,
perdidos no fumo da ilusão.

Não derrubes o muro,
não te percas na densa poeira
criada por nossos autómatos egos.
Por natureza nós já nascemos cegos,
cegos e de que maneira…

Não tentes imaginar
Como será para além do muro,

isso nenhum te poderá explicar,
porque nenhum é alguém
que te possa ou queira mostrar
este frio sítio de ninguém.

Tens todo esse teu mundo
para matares e amares.
Tu calculaste ao segundo
a deixa para me deixares.

Não tentes perceber
como será para além do muro,

tu nunca quiseste saber,
ou conhecer ,
outra coisa que não tu.

Agora poisa,
agora deixa-mo…
meu braço não te vai trazer!

Não partas tua cara face de loiça
ao tentar saltar o muro…

vai-te pois está a anoitecer.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A CASA DO VIOLONCELO - CAPÍTULO I - DIFERENTES MANHÃS





Aquele era o dia do meu aniversário. Completava dezoito anos. Para mim era apenas mais um dia, mais uma manhã, que daria lugar a mais uma tarde, que acabaria no início de mais uma noite. Mas naquele dia eu fazia dezoito anos. Toda a rua sabia. É da natureza das coisas toda a rua saber de todos os acontecimentos, de todas as conversas, de todos os silêncios, de tudo e do mínimo nada que sucede em minha casa.E naquele dia toda a rua sabia. Era o dia em que completava dezoito anos.

Hoje a minha mãe não trabalha. É Sábado. Excepcionalmente ficará em casa, colocará o seu melhor sorriso e eu, para não a desiludir, farei o mesmo. Não gosto de ver a minha mãe triste. Gosto de quando ela sorri como antes: passado que não volta. Desde aquele dia, em que ele nos deixou, o sorriso da minha mãe quase desapareceu.. O meu, não o recordo bem. Era ainda muito pequeno para o conseguir recordar.

Depois de tudo, depois de todos estes anos, já não temos sorrisos novos, convincentes. Já não temos. Imitamos no limiar da perfeição aqueles que, sem nenhum motivo, sem nenhuma explicação racional, sem nenhum esforço, sem dias ou horas marcadas, nos saíam quando estávamos todos juntos: felicidade. Passado.

Não sei bem se já estava acordado ou a dormir quando a minha mãe entrou. Trazia um sorriso posto na cara e uma alegria simulada, de forma tão sincera, nos olhos. Hoje eu fazia dezoito anos. Levantei-me. Abraçámo-nos. Momento irreal. Mãe e filho unidos como no início: como sempre. União que não precisa ser mostrada, que não precisa ser explicada.


Tenho uma palavra que não consigo nunca verbalizar,
talvez por natureza minha ou por estranheza ao seu som.

Só sei que me custa dizê-la quando estou contigo,
mãe, nesses momentos em que somos só os dois:
mãe e filho: somos o silêncio, que no fundo tanto diz.

Diz tudo aquilo que as palavras não conseguem,
que as mãos não nos permitem executar
pois somos mãe e filho: somos silêncio no silêncio:

somos amor sem pronunciar.


Naquele momento fomos amor. Amor sem pronunciar. Por momentos sentimo-nos, dissemos tudo o que queríamos dizer. Aquele abraço apertado, as suas mãos que quase me tocaram, as lágrimas que quase chorei, os nossos corpos que quase se encontraram disseram tudo. Disseram amor. As primeiras palavras do dia foram: parabéns João. Depois, depois o silêncio.

Este era apenas mais um aniversário para mim. Desde aquele dia, todos os meus aniversários são iguais. Todos os outros dias do ano não os sei, bem, descrever. Como se descreve o vazio? Não recordo como foram todos os outros dias. Não me lembro de ontem sequer. Sei que hoje é Sábado. Faço anos.

Olho em redor. O meu quarto. A cama feita. O violoncelo ao canto, esquecido. Desde o dia em que ele nos deixou, que o velho violoncelo dorme ali. Já não me lembro quem o pôs no meu quarto. Não sei se está ali todos os dias. Está hoje, no dia do meu aniversário.

O meu pai foi um grande violoncelista. Toda a rua sabe disso. Lembro-me de ser pequeno e ouvi-lo tocar, horas e horas. O tempo não passava. O tempo ficava simplesmente a ouvir o meu pai tocar violoncelo. Aquelas cordas tinham vida e o arco orquestrava-as sob a mão ágil do meu pai. Talvez me tivesse também ensinado a tocar se…se não nos tivesse deixado.




Hoje o meu filho fez dezoito anos. Na sua cara vi felicidade, vi o homem em que se tornou. Meu querido filho. Vi a minha mulher, bela, como se os anos não lhe tivessem passado, sorria também, sorria de verdade. E eu tentava apenas que eles me vissem.

Como eu gostava que eles me vissem. Hoje, na Casa do Violoncelo, houve felicidade. Talvez os vizinhos não tenham ouvido os risos do meu filho, a minha mulher a cantar-lhe os parabéns ou as conversas alegres que tiveram. Mas eu ouvi. Estive com eles.

A Casa do Violoncelo. Era assim que os vizinhos lhe chamavam. Durante os cinco anos em que ali vivi, cedo começou a ser assim chamada. Depois, por alguma razão continuou a ser assim chamada. Talvez os nomes sejam imortais.

Nos primeiros tempos, várias foram as ocasiões em que os vizinhos, principalmente o velho, bom, Alberto, me reclamava do choro do violoncelo já em horas tardias. Enquanto se queixava, sorria. Depois dava-me os parabéns. De todas as vezes eu apenas dizia: desculpe, não volta acontecer. Mas voltava. E as queixas tornavam. E eu dava a mesma desculpa. Até que um dia, por alguma razão, as queixas pararam. Coisas do tempo. Hábito.

Algum tempo depois, eu parti. Morri.

A culpa foi minha. Silêncio. Depois, alguém, alguma voz me diz:
- A culpa não foi sua.




Lembro-me como se fosse hoje. Naquele dia, em que ele nos deixou, o nosso filho completava cinco anos. Antes daquele dia, houveram outros dias que nos levaram até aquele momento.

Éramos felizes, o nosso filho era feliz, o universo era simples e sem falhas. O destino era doce, o tempo era calmo e nós acreditámos que seria sempre assim. Como eu queria que tivesse sido sempre assim. Como eu, nós nos enganámos ao pensar que seria, para sempre, eternamente, assim. Não foi. Naquele dia, o David deixou-nos.

Tínhamos combinado, ontem, que hoje levaríamos o João ao Jardim Zoológico. O nosso filho fazia cinco anos. Tanto eu como o David, concordámos que esse seria um bom plano para deixá-lo feliz.


O meu marido gostava de nos ver felizes. Quando por alguma razão, eu estava mais em baixo, ele era triste também por um segundo. No segundo seguinte, reagia. Dizia-me as palavras que eu precisava ouvir. Nos seus olhos: alegria. Nesses momentos tudo ficava mais fácil.

Tudo era harmonioso, como a música que tocava nas noites, muitas. Noites calmas. Noites alegres. Noites de amor, em que os nossos corpos se encontravam e o mundo se perdia. O tempo parava, só para nós. Os seus lábios tocavam cada ponto do meu corpo. Conheciam-no tão bem. As minhas mãos nas suas costas, âncoras cravadas. Cravadas naquele momento. Os nossos olhos diziam mil coisas. A nossa pele, suada, unida. Amor. Depois a manhã. Sábado.

Hoje o João fazia cinco anos. Acordámos cedo, eu primeiro. O nosso filho já nos esperava ansioso. Os seus olhos enormes, ansiosos.

Naquela manhã estávamos felizes.





A noite foi difícil, atormentada talvez pelas turvas lembranças daquele dia. Aquele dia: esse dia tão distante, mas tão próximo de imaginar. Metade do que lhe recordo talvez tenha sido verdade, a outra metade foi-lhe acrescentada pelo meu arrependimento, pela minha culpa, pela minha vontade de fazer de forma diferente. Então as duas metades juntam-se e formam um novo dia que vou vivendo nesta manhã.

Amanhã moldarei um hoje diferente deste que realmente vivo. Amanhã abrirei o baú da mentira e com ela darei cor: vida: a este hoje desbotado pelo ontem, a esta manhã que se enlaça com a noite.


Ao acordar nesta qualquer manhã
Depois de mais um sono fingido
Eu penso em ti
E nesse momento quase te amo

Quando olho o retrato sumido
Com as lágrimas secas que derramo
Eu toco em ti
E nesse momento quase sou teu

Mas não sou
Não sei de quem sou

Sou do tempo que nada me traz
Sou a lembrança que tu negarás

E quando eu penso que sarou
Afinal ainda arde
Ela queima como absinto
Ela queima como mil sóis

Quando eu penso que acabou
Afinal ainda te sinto
Afinal ainda me dóis

Mas quando eu acordo
Mas quando olho o retrato
Eu penso em ti
Eu toco em ti

E nesse momento não real
Esta dor é recompensa

Nesse momento eu sei que existi


Sei que existi naquele dia. Depois parti. A culpa foi minha.





Lembro-me do dia em que fiz sete anos. O meu pai tinha-nos deixado há pouco tempo. Eu era ainda muito criança, para ser homem. Mas fui.

Eu gostava muito do meu pai. Lembro-me de sorrir com ele. Ríamo-nos muito. O meu pai ficava feliz com a nossa felicidade. Disso tenho a certeza. Pouco antes de nos deixar, o meu pai havia-me prometido que me ensinaria, um dia, a tocar violoncelo. Ele dizia que eu ainda não tinha idade para isso. Acho que no fundo ele nunca quis que eu tocasse naquele violoncelo.

Este foi o primeiro aniversário sem o meu pai. Ele deixou-nos no dia em que eu fiz cinco anos. No ano passado não fiz anos. A minha mãe não existia, apenas o seu choro. Creio que nunca completei seis anos. É como se o tempo tivesse vacilado naquele ano. É como se o mundo tivesse parado. Esse ano não existiu, não passou, aqui, na Casa do Violoncelo.

Hoje foi então a primeira vez que fiz anos, depois daquele dia. A minha mãe veio ter comigo de manhã. Não sei se estava já acordado quando ela entrou. Abraçámo-nos. Durante o resto do dia, olhamos impotentes fotografias do meu pai, jovem ainda. Durante esses intervalos a minha mãe contava histórias sobre o meu pai. Em todas elas, ele sorria. Em todas elas, a voz da minha mãe era invadida por soluços: saudade. Depois a sua voz perdia-se. Chorava.

Nesse dia fiz sete anos.




Naquela manhã estávamos felizes. O nosso filho completava cinco anos. O tempo era nosso.

Tudo aquilo de que vivo é passado
O que ouço ou que te digo
Já não é verdade agora pois passou

A velocidade a que a luz me mostra
A tua face que eu supus que fosse igual
Afinal também mudou

Tudo é tempo
Parece lento
Mas tudo leva

Faz sol no Verão
E neva em Dezembro

Eu procuro a tua mão
Para a minha não cair

O momento não é nosso
Ele deixa de existir
Quando nostálgico eu o tento captar

Sinto a sua falta
E não sou mais do que tempo a passar
Um pouco mais que o necessário

O meu grito vai no universo imaginário
Viajando no tempo que pára agora

A estrela é distante
E o tempo também chora


Por vezes penso que o tempo também chorou. Por vezes penso que não foi vontade sua, aquela que levou o meu marido naquele dia.

Eram nove da manhã quando saímos de casa. Saímos todos. Felizes. Nem todos voltaríamos no final daquele dia. Mas saímos, porque não sabíamos.

Durante a viagem, eu, ainda com sono ia calada. Pensava em coisas pouco importantes. O João, atrás, observava curioso a paisagem. Perguntava constantemente:
– Ainda falta muito, pai? - o David respondia-lhe sempre. Depois sorria. E o nosso filho sorria.

Era um dia de Novembro mas estava sol. Lembro-me bem. Tive de ralhar, fazer a minha voz mais grave, para convencer o João a trazer um casaco. Ele não queria. Depois o pai disse-lhe:
- É melhor! Porque senão não te deixam entrar para veres os leões. - então ele, de pronto, foi buscar o casaco que a minha sogra lhe havia oferecido no Natal passado. O David olhou para mim, cúmplice, piscou o olho e sorriu.

Faltava pouco para chegarmos. Já havia algum tempo que o meu marido começara a falar. Fazia-me perguntas, fazia planos para aquela manhã, para aquela tarde, para nós. O tempo era nosso e ele tentava encolhê-lo. Falava.


CAPÍTULOS ANTERIORES:

A CASA DO VIOLONCELO - PRÓLOGO : http://meraspalavrasammc.blogspot.com/2011/02/casa-do-violoncelo-prologo.html

terça-feira, 1 de março de 2011

PÁGINAS EM BRANCO




A minha história ainda não sei qual será. Não sei se valerá ser contada um dia. Nesse dia em que eu já cá não estiver: futuro distante. E depois? Será essa ainda a minha história? Ou a de outros que fingem ser sua? Tal como eu fingi viver tantas histórias que nunca foram minhas, mas que foram ficando agarradas ao meu corpo, por ausência de outra melhor. Outra superior em verdade que ainda não posso hoje contar.

Por vezes penso ser parecido comigo,
mas eu não sou eu veramente.
Nunca o fui.

Por vezes eu durmo vago ao abrigo
das mentiras de toda a gente.
Nelas a minha flui.

Verdade ou mentira?

O que conta é a moral
dessa história inacabada.

A verdade pouco vale
na ilusória ornamentada.

Eu,
tu,
nós todos:

histórias…


Vidas simuladas sem sentido, verdadeiras.

Promessas, queimadas quase por inteiras.

Somos tão errantes sem uma boa história,
sem um bom nome…

Eu chamo-me: Eu.

Não sei se o nome é meu
ou se o destino mo pregou.

Se é verdade o que imagino
esta história ainda não acabou.

Sobram ainda algumas páginas,
brancas por virar:
grãos de areia no castelo que o vento levará.

A minha história ainda não sei,

ainda não sei qual será.

FEIO, MAU E ESTÚPIDO




O meu passo é inconstante. Ora é rápido, ora é lento. Afasto-me das pessoas que vêm em direcção a mim. Pareço ser invisível, mas não sou. Vejo-me, apenas eu noto a minha presença.

Havia perante meus olhos
fumo, ruínas e gritos desafinados
pintados por vozes tão trémulas.

Havia a cidade e eu
e os outros
e nada.

O tudo à fome morreu
e a certeza foi quebrada

Mas o meu corpo não cedeu,
capa desta alma parada.

O nosso tormento veio mais cedo
e de deus não tiramos mais que medo…

o medo sempre vendeu tão bem!

Agora que por fim o tens,
tu não sabes com ele agir.

As tuas palavras,
o teu sim e o teu não,
são agora difíceis de ouvir

porque no fim essa boa razão
também ela vai subnutrir,
explodir como bomba sem rastilho.

Mas isso são coisas do mundo
e bem lá no fundo,
eu não tenho porque fingir.

Na mão eu tenho o milho
e no estômago a humanidade.

O meu pão que não partilho,
eu esmago no verso pútrido.
Afinal sou mais um filho:

sou feio, mau e estúpido…

sou um resto de verdade.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A CASA DO VIOLONCELO - PRÓLOGO




Como me sinto? Como se deve sentir um morto?

Era uma tarde de Dezembro. Horas longas, frias, iam passando. Faziam-se notar no relógio, no tempo que já não era meu. No silêncio, os meus pensamentos multiplicavam-se. Unia-os o mesmo destino.

Então o meu olhar foi desviado nessa carnal direcção. Ao meu lado ela dormia. Quase que lia os seus sonhos. Estava linda. Já perdi o número de tardes em que, aqui, ao seu lado, fiquei a vê-la dormir. Quando acordou teve a consciência de que aquela foi apenas mais uma tarde de Dezembro. Antes daquela tarde, antecedida por uma qualquer manhã, passaram momentos que nos levaram até ali: aquela tarde silenciosa, perdida em Dezembro.

São agora sete horas. A minha mulher já acordou. Está a fazer o jantar. Na rua já é noite. Pela janela entram os sons da cidade: vozes de pessoas, carros apressados, lojas que se fecham. E aqui, na sala, o silêncio. E depois mais um silêncio, cortado pela chegada do João.

Chegou da escola trazido pela minha mãe, que todos os dias vai buscá-lo. A minha mãe não entra, fica apenas a ver pela porta da entrada o João correr para a minha mulher. Nesse momento vejo o rosto da minha mãe parado, como se tentasse encontrar alguma coisa, alguém. O João, como todos os dias quando chega da escola, vem cheio de histórias para contar, vê-se no brilho dos seus olhos. Tem quase sete anos, tantos como esta casa.

Mudámo-nos para cá e pouco depois ele, o nosso filho nasceu. Antes vivíamos em casa da minha mãe, que fica ao fundo da rua. Lá vive também a minha irmã, a minha querida irmã. Estávamos casados há pouco mais de um ano e foi por esta altura que decidimos mudar-nos para esta casa. Tomamos a decisão na mesma noite em que, radiante, a minha mulher me disse que estava grávida. A casa da minha mãe não é muito grande. Todos concordámos que seria o melhor. A casa onde hoje vivemos, eu não sei bem se conto, não é nossa, arrendámo-la. Mudámo-nos para cá e duas semanas depois, o João nasceu. Nasceu o nosso filho.

Desde há quase dois anos que a minha mãe não nos vem visitar. Apenas fica a olhar pela porta da entrada. Apenas fica a ver o João correr para mãe. Depois olha vagamente o interior da casa. Eu não estou. Nesse momento a minha mãe chora. Depois, depois vai embora. Volta no dia seguinte.
Como qualquer criança, o meu filho não gosta de silêncio. Corre para a mãe a contar-lhe as incidências do seu pequeno, vasto universo. Ela ouve-o como se o ouvisse realmente. Mas não ouve.

O seu pensamento está noutro lugar, distante. Mas o seu olhar fingidamente interessado e as suas perguntas desinteressadamente interessadas deixam o João feliz. Por momentos, o João fica com a certeza de que realmente falou com o dinossauro com que brincou hoje na escola, por momentos o meu João foi polícia e prendeu mil bandidos, por momentos o universo foi seu. E eu, ali tão perto, vi tudo isso.

A minha mulher sorri. Por momentos, ela fica com a certeza de que se sente feliz com a felicidade do nosso filho. Mas não sente. Depois ele corre para o seu quarto. Hoje não veio ter comigo, contar as mesmas histórias, com o mesmo olhar com que momentos antes tinha contado à sua mãe. Talvez seja por ser Dezembro.

Na sala, eu vou ficando a ver fotografias antigas, em molduras coloridas desbotadas pelo tempo: momentos felizes. Lembranças com pó, pousadas sobre os móveis antigos da sala. Momentos recordados em Dezembro.

Numa dessas fotografias, eu sou ainda jovem, sorrio ao lado dos meus pais. Eles também sorriem e, por momentos, fico com a sensação de que sempre foi assim. Numa outra, estou eu, criança. Apenas um pouco mais velho que o meu filho. Tempos de escola, em que os Dezembros eram diferentes.

Depois, escondida na última página de um álbum castanho, com manchas líquidas, está ela. Linda. Jovem. Com os seus cabelos negros subtilmente frisados, com a sua pele branca como a cal e as suas mãos delicadas pousadas sobre o colo. Com os seus olhos fundos como poços cavados na sua face bela, serena, e os seus lábios que esboçam um sorriso leve: está ela. Os meus olhos ficam presos durante algum tempo ali: naquela fotografia: até que são libertados pelo João que passa a correr para a cozinha. Pouso-a.

Hora de jantar. Novo silêncio. As pernas do João, que ainda não tocam o chão e que ele faz baloiçar alternadamente, são a única palavra. Os olhos dela estão baixos, pesados. Os meus estão perdidos, talvez ainda metidos naquela fotografia. E assim vamos comendo, ao som das palavras que as pernas baloiçantes do João vão dizendo. Passam-se minutos largos ao som daquelas palavras.

Todos terminámos de jantar e o João já foi brincar. Está neste momento num outro mundo, distante, talvez paralelo. Mais vivo. E nós, eu e ela, num tempo quase parado. Sós de tudo. Como galáxias próximas num universo morto, como barcos roubados de uma frota no porto. Passam-se minutos, horas, passa-se toda uma noite inteira. Vazia. Dispersa. Longínqua. Silenciosa.

Levanto-me ainda cedo. Ponho os pés no chão frio e caminho. O tacto dos mortos não existe e os meus passos não se ouvem. A porta do quarto do João está entreaberta. Ele dorme. Hoje dormirá até mais tarde porque é Sábado. Sigo até à varanda. O meu cão está já acordado e pede-me atenção. Faço-lhe uma festa no dorso. Só ele nota a minha presença. À minha frente a manhã é calma. A rua é pacífica. O mundo está parado. É Sábado.

Passaram-se muitos outros sábados, muitas outras manhãs, tardes e noites, muitos outros Dezembros. O João completou hoje dezoito anos. É já distante o tempo em que o meu filho me chamava para brincar, é já distante o tempo em que juntos, eu e ela, passeávamos no parque enquanto o João, que já andava muito bem para a sua idade, ficava espantado com os pombos que voavam. Ora se assustava, ora se ria. Os seus olhos eram enormes, eram dois mundos. Naquele momento éramos felizes. É tudo já tão distante.

A culpa foi minha. Silêncio. Depois, alguém, alguma voz me diz:

- A culpa não foi sua.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

IN VÁCUO



Imaginemos que durante um segundo eu serei total, serei mais do que matéria, do que eu, do que tu, do que nada, do que o mundo morto em que vivemos. Deixemos a tinta cobrir a folha branca. Deixemos a tinta falar por mim, falar pelo meu silêncio tão cúmplice. Pois eu apenas dei a mão, robotizada pelos gestos que contigo fui aprendendo. Agora escrevendo, o pensamento toma as rédeas. Canta, grita, chora. Canta e grita e chora. Canta ou grita ou chora. Nesta hora, tão solta do tempo, imaginemos apenas.
Os pés firmados sobre o chão que se abrirá tocarão o vazio. Seremos livres da verdade e da mentira, seremos mais altos que isso. Estaremos nem no céu, nem no inferno. Estaremos dentro de nós mesmos. Mergulhados. Perdidos. Assustados.

Aaaaahhhhh!

Silêncio agora.

Uma folha em branco esperando
por um novo grito amigo,
escondido nas lágrimas quentes.

Concorrentes são as rectas
que correm para o vértice desalinhado.

Minhas palavras tão incertas
morrem no meu silêncio programado.

Porque as palavras são apenas pedaços,
areias movediças num deserto de nada:
mundo: espelho baço.

Ornamentos tão pobres todos, -

poesia, mentira ritmada

- e o meu grito perdeu-se no espaço.

Silêncio,

silêncio

e depois um outro diferente.

O ciclo vai-se repetindo como música,
como o bater do meu coração
que bombeia sangue saturado de medo:
coisa de gente.

Num outro decadente lugar
numa outra qualquer acção,
num outro perigoso enredo
alguém sentirá o mesmo:

um vazio,

vazio…

tão silencioso.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

SOL E TEMPO



Na sala, eu vou ficando a ver fotografias antigas, em molduras coloridas desbotadas pelo tempo: momentos felizes. Lembranças com pó, pousadas sobre os móveis antigos da sala. Momentos recordados em Dezembro.
Numa dessas fotografias, eu sou ainda jovem, sorrio ao lado dos meus pais. Eles também sorriem e, por momentos, fico com a sensação de que sempre foi assim. Numa outra, estou eu, criança. Apenas um pouco mais velho que o meu filho. Tempos de escola, em que os Dezembros eram diferentes.
Depois, escondida na última página de um álbum castanho, com manchas líquidas, está ela. Linda. Jovem. Com os seus cabelos negros subtilmente frisados, com a sua pele branca como a cal e as suas mãos delicadas pousadas sobre o colo. Com os seus olhos fundos como poços cavados na sua face bela, serena, e os seus lábios esboçando-me um sorriso leve: está ela. Os meus olhos ficam presos durante algum tempo, ali: naquela fotografia.


O sol desce por entre as nuvens poucas
do céu azul.

Os minutos empancam no velho relógio
do meu pulso.

Confuso.

Eu não sei se estou aqui realmente,
se sou eu quem escreve estas palavras
ainda sem sentido.

Lá fora vejo andantes manchas de gente
com um rumo tão perfeitamente perdido.

O sol tocou agora as salgadas faces do mar.
Beijou-as levemente
e depois desapareceu.

Mas aqui o tempo parece não querer passar.
Teimoso como gente,
quase tanto como eu.

O tempo por vezes pára,
contrariando o sol poente.

A crença que eu queimara
hoje volta-me intermitente.

O dia volveu-se noite clara,
pois o tempo está parado.

Paradoxo normal,

momento nunca tido desejado

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

VELHO LEME




Das palavras que te vou lendo, pouco tiro.
Dos gestos reprimidos, somente a intenção.

Os ditados que encomendo,
de uma ciência que nunca te sugiro,
são talvez a minha melhor lição.

Os nomes estranhos, que não conheço nem bem,
são sempre os mais belos.
São sempre os mais fáceis de memorizar.

Ninguém recorda o meu,
pois é coisa difícil de explicar.

Poeta,
porta aberta para a perdição.

Poeta,
alma coberta de pouca razão.

Poeta,
coisa nenhuma, tão cheia de nada.

O barco ruma desorientado
nesta noite tão calada.
O mar sempre a meu lado
vai estranhando a rota tomada.

E eu,
sigo.

As palavras que não digo,
por certo pensei dizê-las.

Não sei se foi por ti,
Não sei se foi por não tê-las…

sei que não tas disse.
Fugi sem que ninguém visse,
naquele dia, naquela hora…

lembrança tão vazia.

PROTÓTIPOS SERES



Há quem tenha na cara os olhos dos outros,
cegos por olhos ainda mais antigos.

Há quem tenha nas palavras outros sentidos
que não os seus,
que não aqueles prometidos.

Mas sim aqueles que o tempo moldou.
Se eu não sou quem deveria ser
foi causa da vida que assim me levou

Viver,

é como um rio
que pára por vezes,
mas sempre se perde no mar.

Viver,

é como dia frio
em ano de quentes meses,
que esfria o corpo por queimar.

MIL INSTANTES MORTAIS




“Eu nunca pensei que fosse normal. Nunca tentei ser normal. Eu não sei nada sobre o que é ser normal. Passei a minha vida inteira preso. Mas a prisão está na tua mente, como tu bem sabes. E quando me perguntam se eu estou preso, eu respondo: não, simplesmente estou aqui.”

Jogos perigosos, numa linha de si estreita,
são quase sempre deixados de lado.

O seguro não é doce,
mas também não é amargo.

O perigo sempre espreita
procurando alguém que lhe dê uma chance.
Mas ninguém o agarra,
ninguém lhe estende a mão vazia.

Metidos na porcaria,
eles temem o desconhecido.

Eu, louco, quis provar
esse gosto por vós esquecido.
Esse mortal pecado
ao fundo inferno prometido.

E agora,
a minha pena é ter de para vós olhar
e ver vossas vidas tão regulares.

Mas não…

não me arrependo nem por um instante
desses que perco hoje aos milhares.

CHAMEM-LHE POESIA




Por vezes não há nada para ser dito. Outras, talvez o silêncio fosse o melhor. Mas dentro de mim as palavras mexem-se. Circulam livremente. Roubam e deitam fora razões. E eu, eu não sei bem o que dizer, ou o que seria suposto fazer.
Perco o controlo dos sentimentos. Sinto. Escrevo. Sinto. Escrevo. A caneta na mão fria cria símbolos estranhos:

palavras codificadas:

poesia.


As palavras amontoam-se e desorganizam-se,
Formando frases confusas de sentidos perdidos.

Na folha os segundos pousam-se e esticam-se,
Deixando nas linhas brancas momentos esbatidos.

Versos soltos,
crianças puras,
almas quase nuas.

Chamem-lhe poesia um dia.

Na casa vazia, o meu corpo toma uma imagem,
nova para mim.

As palavras vão e voltam, de passagem,
neste ciclo sem fim.

Sentimentos puros,
palavras não ditas,
versos rasurados…

um poema:

um espelho quebrado.